26 de jun de 2006

Linguage dos óio

Ernani Cortat
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Linguage dos óio
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Quem repara o corpo humano
E com coidado nalisa,
Vê que o Autô Soberano
Lhe deu tudo o que precisa,
Os orgo que a gente tem
Tudo serve munto bem,
Mas ninguém pode negá
Que o Auto da Criação
Fez com maior prefeição
Os orgo visioná.
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Os óio além de chorá,
É quem vê a nossa estrada
Mode o corpo se livrá
De queda e barruada
E além de chorá e de vê
Prumode nos defendê,
Tem mais um grande mistér
De admirave vantage,
Na sua muda linguage
Diz quando qué ou não qué.
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Os óios consigo tem
Incomparave segredo,
Tem o oiá querendo bem
E o oiá sentindo medo,
A pessoa apaixonada
Não precisa dizê nada,
Não precisa utilizá
A língua que tem na bôca,
O oiá de uma caboca
Diz quando qué namorá.
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Munta comunicação
Os óio veve fazendo
Por izempro, oiá pidão
Dá siná que tá querendo
Tudo apresenta na vista,
Comparo com o truquista
Trabaiando bem ativo
Dexando o povo enganado,
Os óios pissui dois lado,
Positivo e negativo.
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Mesmo sem nada falá,
Mesmo assim calado e mudo,
Os orgo visioná
Sabe dá siná de tudo,
Quando fica namorado
Pela moça despresado
Não precisa conversá,
Logo ele tá entendendo
Os óios dela dizendo,
Vica lá que eu vivo cá.
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Os óios conversa munto
Nele um grande livro inziste
Todo repreto de assunto,
Por izempro o oiá triste
Com certeza tá contando
Que seu dono tá passando
Um sofrimento sem fim,
E o oiá desconfiado
Diz que o seu dono é curpado
Fez arguma coisa ruim.
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Os óis duma pessoa
Pode bem sê comparado
Com as água da lagoa
Quando o vento tá parado,
Mas porém no mesmo istante
Pode ficá revortante
Querendo desafiá,
Infuricido e valente;
Neste dois malandro a gente
Nunca pode confiá.
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Oiá puro, manso e terno,
Protetó e cheio de brio
É o doce oiá materno
Pedindo para o seu fio
Saúde e felicidade
Este oiá de piedade
De perdão e de ternura
Diz que preza, que ama e estima
É os óio que se aproxima
Dos óio da Virge Pura.
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Nem mesmo os grande oculista,
Os dotô que munta estuda,
Os mais maió cientista,
Conhece a lingua muda
Dos orgo visioná
E os mais ruim de decifrá
De todos que eu tô falando,
É quando o oiá é zanoio,
Ninguém sabe cada óio
Pra onde tá reparando.
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(Patativa do Assaré - Antônio Gonçalves da Silva )
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20 de jun de 2006

Festa Junina

OLHA PRO CÉU MEU AMOR .
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Olha pro céu meu amor
Vê como ele está lindo
Olha prá quele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite igual a esta
que tu me deste o teu coração
O céu estava em festa
porque era noite de São João
Havia balões no ar
xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
que incendiou meu coração.
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(José Fernandes e Luiz Gonzaga)
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CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA
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Chegou a hora da fogueira.
É noite de São João.
O céu fica todo iluminado,
fica todo estrelado,
pintadinho de balão.
Pensando na cabocla a noite inteira
também fica uma fogueira
dentro do meu coração...
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Quando eu era pequenino,
de pé no chão,
recortava papel fino pra fazer balão.
E o balão ía subindo
para o azul da imensidão.
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Hoje em dia meu destino
não vive em paz.
O balão de papel fino
já não sobe mais.
O balão da ilusão
levou pedra e foi ao chão.
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(Lamartine Babo)
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PULA A FOGUEIRA
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Pula a fogueira Iaiá,
pula a fogueira Ioiô.
Cuidado para não se queimar.
Olha que a fogueira
já queimou o meu amor.
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Nesta noite de festança
todos caem na dança
alegrando o coração.
Foguetes, cantos e troca
na cidade e na roça
em louvor a São João.
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Nesta noite de folguedo
todos brincam sem med
o a soltar seu pistolão.
Morena flor do sertão,
quero saber se tu és
dona do meu coração.
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(João B. Filho)
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PEDRO, ANTÔNIO E JOÃO
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Com a filha de João
Antônio ía se casar,
mas Pedro fugiu com a noiva
na hora de ir pro altar.
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A fogueira está queimando,
o balão está subindo,
Antônio estava chorando
e Pedro estava fugindo.
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E no fim dessa história,
ao apagar-se a fogueira,
João consolava Antônio,
que caiu na bebedeira.
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( Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago)
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Pinturas de Edilson da Silva Araújo

14 de jun de 2006

Fala Nélida ...

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A arrogância do inaugural é mais danosa para a juventude do que o desinteresse em ler?
Nélida: Nós estamos vivendo mudanças dramáticas na história. Até que ponto a juventude está afetada por um desalento que é grande e justificável? Afinal, vão respeitar a quem? A esses políticos incompetentes, que parecem todos iguais? Vivemos a falta utopia, de sentimento utópico, a falta de fantasiar a realidade que não seja por meio da droga. Fantasiar é lidar com os recursos humanos, fazer com que eles se expandam. É ficar dentro do círculo humano e não alienar-se do humano, como se faz com as drogas. Há hoje uma noção da falsa prosperidade, do falso modismo, que não atinge só o jovem, mas a todos. Os nossos valores estão abalados. O humanismo está recebendo chicotadas. Corremos o risco de reproduzir certos países em que é comum evitar-se qualquer laço afetivo com o colega de trabalho porque você sabe que vai ter de inevitavelmente atropelá-lo. Os EUA, por exemplo, são uma sociedade erguida sob valores anti-humanitários. Vivemos hoje a valorização do banal, o ataque ao pensamento, à reflexão, à boa angústia, que todo mundo tem de ter. Que falsa euforia é essa em que ninguém tem responsabilidade com a sua própria história individual? Você anda pelo mundo como se não fosse adequado refletir sobre a condição humana. Mas é preciso refletir, ter densidade, angústia, que é o ato de sonhar e de conhecer a ascensão e a queda.
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(Parte da entrevista com Nélida Piñon na Revista Língua Portuguesa)

9 de jun de 2006

Fala Irene ...


CICLO DAS CHAMAS, DE ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO
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( Umas palavras... de Irene Vieira da Silva)
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Os poemas, todos com valor autônomo. Valem por si, ciclo interno.O autor faz de cada texto um renascimento, adubo e flor, família de personalidades únicas, mas enlaçadas num ciclo maior, o livro. Victoria da vida, já que os poemas são criaturas,provando que os buenos Prados trazem uma nova potência à voz lírica brasileira: ah, o poema Victoria que pai e filha declamam com firmeza e segurança.Nada pode silenciá-los, nem o comando da violência dos últimos dias ...
Além dos já famosos artistas de nome Almeida Prado (Décio, Lucília, Guilherme...) acho que a poesia precisa desse Antônio Lázaro lá do interior paulista com sua sensibilidade afeita ao arcano e contemporâneo. Nossa alma fica tocada de um outro tempo, mais harmonioso, de relações mais duradouras e profundas.
Romântico? Clássico? Moderno? Pós-moderno? Sua obra escapa a classificações apressadas. Apesar do soneto, e como os grandes do gênero __ Camões, Drummond, Vinicius e outros __o autor não é escravo da fôrma.Apenas torna a sua paixão desmedida, exagerada, de altíssima temperatura e febre... mais domada, como se só assim a expressão fosse possível. Confessa isso em muitos poemas, como pássaro que se acerta para manter o estado de vôo.
Que a paixão, sorte e sina, pela musa primeira, lá na idade ambígua infanto-juvenil, adolescência, foi faísca e choque, conjunção física-espiritual, surpresa, fonte de epifanias poéticas .E a magia daquele instante continua perene como se o relâmpago não mais quisesse apagar, esfriar. Ciclo das Chamas, eterno retorno da paixão pela vida.
Cantiga para Themis é poema nuclear, miolo de furacão, rodamoinho que envolve o eu e a sua circunstância, no ritmo circular em torno do axis mundi, o eixo, o ponto imutável e sem idade: a menina que um dia parou o tempo do relógio, inaugurou o mito da idade de ouro.A amada, a esposa, a mãe de filhos que o eu lírico, marido apaixonado, não cansa de desejar...ah, esses dois, uma paradeira que balança, algo se mexe e faz rumor... é vida fazendo seu nado desta para uma outra margem... margem ainda invisível de tão adiada. Tão longe o fim. Amor sem termo. Parado no dia da faísca, primeira vista... amor. Cadê o tempo? O gato comeu (risos). Eles são assim... crianças, graças a Deus!
A Cantiga,gravada em cd de Ozias Stafuzza, é assim explicada pelo compositor e cantor em entrevista a mim concedida no Orkut : “é uma coisa antiga mesmo, um sentimento de volta a um bom tempo da música que me fez criar aquele arranjo.A primeira parte, antes de entrar no ritmo, é uma valsa sem o compasso rígido de valsa, um cantar atrasado mesmo, deslocando o compasso e os acordes do violão.Quando entra o ritmo, vira um samba-canção puxado para seresta, com alguns elementos de chorinho no improviso do bandolim.Tive a intenção de me reportar a uma fase de ouro da música brasileira que aprecio muito, do aperfeiçoamento do samba dos anos 30 às liras inspiradíssimas de poetas compositores como Cartola...”
Eu arriscara uma apreciação do poema musicado à moda antiga , meio valsa, meio chorinho e modinha ...O efeito é de um tempo mágico, arcano, parecendo serenata sob a janela de um casarão lá de Piracicaba.E o jeito arrastado de cantar, puxando o verso... tudo me foi confirmado por Ozias , o grande parceiro do nosso poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado.
O poema Cantiga para Themis tem o poder de se desdobrar em literatura e psicanálise, renovação e cura onde amor e sexo, corpo e alma, o eu e o outro, infância e maturidade, outrora e porvir, vida e morte, todas as diversidades se convertem em unidade final.
É mesmo Victoria, ah esse poema onde a opção pela vida , pelo querer ser, o ardor desse desejo tudo pode, tudo vence __enthousiasmós, centelha divina, sopro, fôlego, respiração do Criador em nós, suas criaturas. Se somos filhos mesmo, somos senhores de nosso caminho.E os mares, as montanhas, a morte, tudo ajuda...deixa a vida passar.
Milagre que depende de nós, nossa opção pela convivência solidária, projeto de vitoriosos.Em Deus. É ler Canção dos Encontros, com sua visão positiva de acolhida do próximo. O corpo a serviço do Bem: todos os sentidos aguçados, todos os poros como canais de diálogo.Confiar, esperar, crer , verbos que podem curar o mundo, desarmando o egoísmo, a usura, todos os signos do Mal da atualidade.
Este poeta tem, pois, um projeto.Não escreve a esmo, sem metas.Quer contaminar o mundo de uma infecção que ele tem e já é crônica: doente de amor divino, como certos místicos, ele respira no ritmo da infinitude, mas tem consciência histórica, percebe o ar irrespirável aqui na terra, brasileira, em especial.Mas não desiste da fé e se entrega em doação, transbordamento ,com seu texto arejado, fértil, purificador.
Ele acredita nessa comunhão dos seres pela poesia: crê profundamente e até observa tudo com atenção para ver se já está acontecendo o prometido por Deus. E o seu leitor vai sair dos poemas com mais esperança, fé, certeza e sensibilidade, instrumentos necessários para captar sinais da presença do Criador nas criaturas.
Almeida Prado é parceiro de Murilo Mendes. Em Cristo.Poeta católico sem ser catolicão, Opus Dei, nada disso. Seu jeito de amar é sem culpa, o prazer do corpo não é mais que dádiva,alegria de viver e se desdobra em prazer de convívio com todos, toda a família humana.Que claridade ele promove, como Adélia Prado, renovando o jeito enrustido de outras vertentes erótica da Poesia brasileira e universal.
O peso dessa obra não é apenas estético, mas ético: os velhos de oitenta anos, como diz Garcia Márquez, têm o “direito humano” de amar .Os casais há 50 anos juntos, os de bodas de ouro, não devem sucumbir a uma vida sem paixão.Senão, envelhecem de verdade... e morrem.
O nosso poeta privilegia sempre a liberdade de pensamento e de sentires, mesmo contraditórios. E, surpresa, não acha Saudade a palavra mais linda da Língua Portuguesa: para ele, a palavra Liberdade é mais valiosa. E viva, então, a liberdade nossa aqui de dizer umas palavras!

5 de jun de 2006

Fala Cecília ....

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AUTO RETRATO
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Se me contemplo,
tantas me vejo,
que não entendo
quem sou, no tempo
do pensamento.
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Vou desprendendo
elos que tenho,
alças, enredos...
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Formas, desenho
que tive, e esqueço!
Falas, desejo
e movimento— a que tremendo,
vago segredo
ides, sem medo?!
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Sombras conheço:
não lhes ordeno.
Como prece
do meu sonho inteiro,
e após me perco,
sem mais governo?!
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Nem me lamento
nem esmoreço:
no meu silêncio
há esforço e gênio
e suave exemplo
de mais silêncio.
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Não permaneço.
Cada momento
é meu e alheio.
Meu sangue deixo,
breve e surpreso,
em cada veio
semeado e isento.
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Meu campo, afeito
à mão do vento,
é alto e sereno:
Amor. Desprezo.
Assim compreendo
o meu perfeito
acabamento.
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Múltipla, venço
este tormento
do mundo eterno
que em mim carrego:
e, una, contemplo
o jogo inquieto
em que padeço.
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E recupero
o meu alento
e assim vou sendo.
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Ah, como dentro
de um prisioneiro
há espaço e jeito
para esse apego
a um deus supremo,
e o acerbo intento
do seu concerto
com a morte, o erro...
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( voltas do tempo
— sabido e aceito —
do seu desterro...)
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Cecília Meireles
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3 de jun de 2006

Fala Paulo ...


Foto de Luis Mesquita
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De Vulgari eloquentia
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A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
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Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",
todos os ombros afundavam juntos.
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Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
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Paulo Henriques Britto
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