31 de dez de 2007

Receita de ano novo


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. Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
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Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
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Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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. Carlos Drummond de Andrade

28 de dez de 2007

27 de dez de 2007

O homem, a luta e a eternidade

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William Blake, Os Amantes, ilustração para o Paraíso de Dante
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Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
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Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
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Murilo Mendes

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24 de dez de 2007

NATAL

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Leonardo da Vinci - Adoração dos magos..
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(88)
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O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.
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E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
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Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
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A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
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Fernando Pessoa
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23 de dez de 2007

Cecília ...

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Fotografia de Leonor Cordeiro
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.Coitado de quem pôs sua esperança
Nas praias fora do mundo ...
- Os ares fogem, viram-se as águas,
Mesmo as pedras, com o tempo, mudam .
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Cecília Meireles
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21 de dez de 2007

Adélia Prado ...

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Constantin Hansen
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Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança...
"O que a memória amou fica eterno".
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Adélia Prado
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15 de dez de 2007

Rob Duiser

O leitor e o livro ...
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Fotografia de Rob Duiser
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CONDIÇÃO DO HÁBITO



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.nunca consegui ser pouco
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.com o tempo fui encolhendo os
braços e ressurgindo em asas
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zanzei pelo desvelo
de ser triste
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cometi agruras
e guardei algumas poucas e
necessárias euforias
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cumpro o rasgo que me cabe
quando por inteiro me revelo
em derme e em pelo
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e no que há de espesso
sou mesmo um sincero avesso
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Lau Siqueira

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14 de dez de 2007

SER POETA

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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
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É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
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É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
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E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
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Florbela Espanca
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Ouça o poema "SER POETA" cantado por Sara Tavares e Nuno Guerreiro.
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13 de dez de 2007

Adélia ...

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Ilona Toth Gombkotone
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"Pedro me deixa debater no vazio, não me leva a sério quando digo: um dos meus maiores desejos é fazer deste quintal um lindo jardim, um canteiro ali, uma árvore lá, um banco de pedra. Quando estou bem, esqueço, vou cuidar de outras coisas. Mas à primeira raiva desenterro o jardim que não existe, a parreira de chuchu que, se ele tivesse armado do meu jeito, estaria dando chuchu pro mundo inteiro, e uma prateleira especial que desejo na coberta, pra organizar coisas como o frasco de óleo de máquina, a bomba de bicicleta, o meu desejo de ordem, na fragmentação sem fim que é a minha vida e me produz cansaço e raiva, raiva e cansaço."
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Adélia Prado
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Os componentes da banda, p. 33
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12 de dez de 2007

Gabriela Kimura !

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Encontrei Gabriela quando visitei o seu blog Playground. Foi amor à primeira vista, me encantei com a sua maneira de lidar com as palavras.
Curiosa, desandei a procurar pistas que revelassem um pouco dessa menina. Gostei da entrevista feita por Marcelino Freire no
Portal Literal , ele começa apresentando Gabriela:
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“Gabriela é sansei. Gabriela é neta de japoneses, explico. Gabriela é paulista de Ourinhos. Gabriela mora em São Paulo. Gabriela tem "olhos em risco". Gabriela é das poucas escritoras que conheço com olhos desse tipo. Gabriela é das poucas que escrevem bem. Gabriela é das poucas escritoras sanseis que vi. Gabriela me lembrou Tereza Yamashita, também escritora. Gabriela ainda não ouviu falar de Yamashita. Gabriela é Kimura.”
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Gabriela é extremamente talentosa, me sinto feliz em poder compartilhar com vocês um pouquinho do que ela escreve:

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Da série VARAIS
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Não me lembro de ficarmos em tempo algum com medo da chuva. Só não sabíamos ainda o que era ser tempestade.
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Ilustração: Paulo Stocker
Texto:
Gabriela Kimura
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BOA NOITE, BOM DIA
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Papai foi embora da nossa casa levando caixas, malas e mais da metade da mamãe. Mamãe anda tão magrinha que penso mesmo que papai nunca mais vai devolver aquele tanto da mamãe que a deixava mais bonita. Agora ela anda pela casa de camisola e não cuida mais das plantas, não atende a campainha e queima o feijão.
E parece que esqueceu de brigar com os relógios e com os meus modos. Porque mamãe já não liga se hoje tem escola, chuveiro, roupa limpa, pasta nos dentes. Mamãe, penso, esqueceu da gente.
Porque papai saiu com pressa. Tanta que deixou a Margarida. Acho que adulto é assim, fica esquecido com o tempo. Papai gostava muito da Margarida. Mais do que da mamãe. Pelo menos é o que eu ouvia. Todo dia papai pegava a Margarida no colo, escovava os pêlos, olhava os dentes, dava comida, tirava o cocô. Boa noite e bom dia. Eu já quis ser como a Margarida. Também penso que cachorro é mais feliz.
Mamãe gostava do papai. Papai da Margarida. E agora, Margarida gosta de mim. Que sou o papai pra Margarida. Cuido da comida, dos pêlos e brinco de dar vacina. Até ficar grande e esquecido. E ir embora levando caixas, malas e mais da metade da Margarida. Que vai ficar magrinha, fazer cocô por toda a casa e ficar como a mamãe. Sozinha.
Quando eu crescer não vou ter memória. Nem fotografia. Boa noite e bom dia.
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Gabriela Kimura
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QUANDO A TERRA DESAPARECER
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Quando a terra desaparecer, talvez, quem sabe, nós não estejamos mais aqui. Eu sei, Alfredo, que você não acredita nestas coisas. Mas digo a você: não somos imunes a estas ações da natureza. Por isso insisto tanto nesta coisa que você chama de “fúria desenfreada”. A terra, meu caro, anda cheia até às tampas. E mesmo pessoas, como nós, correm o risco incômodo de sucumbir aos arroubos das enfermidades.

Sim, minha saúde está em perfeito estado. O que não está no eixo é essa sua cara aí perseguindo a gente o tempo todo. Você sabia que a Alice já reclama da vida? E ela tem apenas seis, seis anos! Algumas crianças nascem assim, com os olhinhos repletos de inconformidade. Lembra? Desde o peito até o bocejo.

Hoje sinto que os ânimos recomendam cautela. Mas quem tem o dom do recuo, da paciência completa? Veja se tem cabimento. Agora ela diz que chora de felicidade. Dessa intensidade eu não entendo. Nossa menina, um pequeno aparelho no máximo volume. Minha idade anda avançando e, se ainda me lembro, a sua também.

Penso que, bem lá no fundo, ela deve ter puxado algo de nós. Algo que perdemos na cruel velocidade do tempo. Sinto saudades da vontade de matar nossos desejos. Um a um. Como nas melhores batalhas. Sim, daria tudo para ver um horizonte sangrento. Mas você, Alfredo, não deixa. E insiste em nos perseguir pelos corredores. Usando a pior das desculpas: esta doença que você insiste em deixar que mande na gente.

Alice daqui a pouco será uma mocinha. E com a fome de um batalhão deixará esta triste casa para sempre. Ficaremos neste silêncio? Não creio. Porque acredite: quando a terra desaparecer será por minha competência. A cerrar, com muito gosto, esses olhos que não querem reconhecer que estão mortos há muito tempo.
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Gabriela Kimura

9 de dez de 2007

VIAGENS PEDAGÓGICAS !

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Quero mandar o meu abraço para a querida Jussara Pimenta

por sua participação em VIAGENS PEDAGÓGICAS.

Parabéns Jussara !

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3 de dez de 2007

PINTURA

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Van Gogh - Vinha vermelha em Arles - 1888
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Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.
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Ferreira Gullar
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Guignard...

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Alberto da Veiga Guignard - Paisagem mineira
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