28 de abr de 2008

Blogagem coletiva: ABRE ASPAS !

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Hoje é dia de blogagem coletiva promovida pela querida Lunna Guedes.
Conheci a Lunna através da Luma e da Maria Augusta. Gostei dos seus versos e da maneira como se expressa nas suas postagens. Apaixonada por poesias, ela deseja, através dessa blogagem, ampliar ainda mais o espaço da poesia na blogosfera.O participante deve postar uma poesia e uma breve biografia do seu autor.
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ESCALA
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.Às vezes, quando estou de um jeito
que nem mais a tristeza incomoda
penso que minh'alma é uma escada.
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.Então vou subindo, palavra por
palavra...Separando as sílabas
conforme a capacidade de
armazenagem dos meus bolsos. Até
que a poesia acena para mim de
alguma janela
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.E depois some como o vôo que fica na memória
tamanha a beleza do pássaro.
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(do livro Texto Sentido)
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Vou usar as palavras do poeta e crítico literário Frederico Barbosa para apresentar Lau Siqueira:
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Um tal Lau: poeta integral
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Não descobri a poesia de Lau Siqueira pela leitura de seus livros anteriores. Na verdade, os seus poemas é que foram me descobrindo, aos poucos, de maneira bastante original. Não conhecia o autor, nem sabia se Lau era nome de homem ou de mulher, mas durante um certo período, até parecia que aqueles textos curtos, secos, densos e bem humorados me perseguiam. E pegavam pesado. Eram pequenas porradas poéticas, diretos de esquerda no meu queixo, já tão calejado e um tanto cansado das duas vertentes poéticas que me pareciam predominantes no Brasil contemporâneo: a poesia bem comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso; ou a gratuidade retratista ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores.
Professor, de repente aprendi com meus alunos a ler Lau Siqueira. Trabalho com milhares deles em um cursinho em São Paulo. Certa feita, uma mocinha me entregou um poema que havia copiado da Agenda da Tribo. Gostei e perguntei de quem era: Lau Siqueira. Em seguida minha querida colega Clenir, professora do mesmo cursinho, mostrou-me um poema que uma aluna nossa lhe havia enviado pela Internet. Gostamos muito e nos perguntamos se Lau era o autor ou a autora. Depois, outra aluna minha, que já havia me surpreendido ao me acompanhar discretamente durante uma leitura de um poema de Paulo Leminski em sala de aula – mostrando que ainda há muitos jovens que decoram boa poesia espalhados por aí – apresentou-me outro poema daquele tal Lau. Adorei. E percebi que algo sério estava acontecendo.
Quando professores informados e interessados em poesia, como a Clenir e eu, começam a ser apresentados à obra de um autor por seus alunos, algo há nesse poeta. Ele está conseguindo se comunicar com esses jovens sem passar pelo filtro, nem sempre inteligente e muitas vezes preconceituoso, da academia, da mídia e da velhice professoral. Fiquei curioso, queria saber mais sobre esse tal Lau.
Na mesma época, lá pelos idos de 2000, comecei a receber uns poemas de Lau Siqueira no meu e-mail. Lia-os sempre com interesse, até que um deles entusiasmou tanto que me provocou a escrever ao poeta parabenizando-o. De São Paulo, pela Internet, descobri então que é um gaúcho da fronteira com o Uruguai que foi se radicar em João Pessoa, na Paraíba. Descobrimos amigos comuns e muitas afinidades poéticas, políticas e existenciais. Tudo por e-mail, a cerca de 3000 km de distância. Encontramo-nos, até hoje, apenas uma vez: em Recife, para onde Lau se deslocou uma noite prestigiando o lançamento de um livro meu. Nessa noite, entregou-me os originais deste Sem Meias Palavras que o leitor tem agora em mãos.
Estendi-me no relato da minha descoberta da poesia de Lau Siqueira porque parece-me muito sintomático de uma mudança de atitude mais do que necessária na mentalidade brasileira sobre a divulgação da poesia. Repito: a poesia de Lau Siqueira não me chegou através dos livros, e sim pela Internet, pela publicação na Agenda da Tribo e principalmente pelo entusiasmo dos meus alunos.
Naturalmente, o sonho de todo poeta é publicar seus livros. Mas quantos poetas, em toda a história da literatura brasileira, tiveram seus primeiros livros publicados por uma editora “de graça”, sem ter que pagar parcial ou integralmente a edição? Ser publicado, ou não, depende, muitas vezes, na “selva selvagem” do capitalismo, menos da qualidade do trabalho (quantos editores têm algum critério sério?) e muito mais da quantidade de “recursos financeiros disponíveis”.
E mesmo quando o sonho se realiza, quantos livros de poesia foram publicados e nem foram registrados pela mídia ou notados pelo público, simplesmente porque seus autores não têm os “recursos sociais necessários”: acesso aos responsáveis pelos cadernos ditos culturais de nossos jornais e revistas?
Assim, escrevendo bobagens sobre o “happy hour” da elite na Avenida Paulista, sobre as flores do bairro elegante de Higienópolis, em São Paulo, ou corolas do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, colocando-se contra o socialismo ou qualquer mudança no status quo, poetas endinheirados e oportunistas vão se consagrando nesse país da desigualdade feroz, enquanto talentos muito mais críticos e pungentes ficam à margem da publicação e da divulgação.
Para esses, dois caminhos se abrem hoje: a publicação de textos nas heróicas revistas, jornais, ou mesmo, no caso de Lau Siqueira, agendas, que ainda publicam poesia – que também têm critérios muito discutíveis – ou a divulgação de seus textos na Internet. A partir do final dos anos 90, a “rede” tornou-se a mais revolucionária forma de divulgação de poesia no mundo, transformando-se no melhor meio de vencer a barreira do desprezo das editoras, da implicância das livrarias e da rasura da grande imprensa. Lau Siqueira é um ótimo exemplo de quem sabe se valer bem dos recursos da “rede”.
Já em 1954, há quase cinqüenta anos, João Cabral de Melo Neto apresentou uma tese no Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo, intitulada Da Função Moderna da Poesia, em que abordava a questão da incomunicabilidade reinante na poesia contemporânea, a dificuldade dos poetas modernos em atingir um público mais amplo para seus textos. A citação é longa mas vale a pena. Vejamos:
A poesia moderna - captação da realidade objetiva moderna e dos estados de espírito do homem moderno - continuou a ser servida em invólucros perfeitamente anacrônicos e, em geral imprestáveis, nas novas condições que se impuseram.
Mas todo esse progresso realizado limitou-se aos materiais do poema: essas pesquisas limitaram-se a multiplicar os recursos de que se pode valer um poeta para registrar sua expressão pessoal; limitaram-se àquela primeira metade do ato de escrever, no decorrer da qual o poeta luta por dizer com precisão o que deseja; isto é, tiveram apenas em conta consumar a expressão, sem cuidar da sua contraparte orgânica - a comunicação. (...)
O caso do rádio é típico. O poeta moderno ficou inteiramente indiferente a esse poderoso meio de difusão. À exceção de um ou outro exemplo de poema escrito para ser irradiado, levando em conta as limitações e explorando as potencialidades do novo meio de comunicação, as relações da poesia moderna com o rádio se limitam à leitura episódica de obras escritas originariamente para serem lidas em livro, com absoluto insucesso, sempre, pelo muito que diverge a palavra transmitida pela audição da palavra transmitida pela visão. (O que acontece com o rádio, ocorre também com o cinema e a televisão e as audiências em geral).
Mas os poetas não desprezaram apenas os novos meios de comunicação postos a seu dispor pela técnica moderna. Também não souberam adaptar às condições da vida moderna os gêneros capazes de serem aproveitados. Deixaram-nos cair em desuso (a poesia narrativa, por exemplo, ou as aucas catalãs, antepassadas das histórias de quadrinhos), ou deixaram que se degradassem em gêneros não poéticos, a exemplo da anedota moderna, herdeira da fábula. Ou expulsaram-nos da categoria de boa literatura, como aconteceu com as letras das canções populares ou com a poesia satírica.
No plano dos tipos problemáticos, tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado "poema" moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto. Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito.
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Duas são, portanto, as saídas para o poeta: fazer um poema moderno que não seja apenas a própria ausência de construção e organização, o simples acúmulo de material poético, e buscar novas formas de comunicação com o público leitor.
Curioso, e não coincidente, é o fato de que alguns dos maiores poetas do século XX, como T. S. Eliot – em 1935 com a peça Murder in the Cathedral –, Gertrude Stein – em 1934 com a peça/ópera Four Saints in Three Acts –, Federico Garcia Lorca – em 1933 com a peça Bodas de Sangre ­–, Samuel Beckett – em 1953 com a peça Esperando Godot –, encontraram no teatro o veículo para estabelecer uma maior comunicação com o público, alcançando um sucesso que suas obras poéticas por si só – por melhor que fossem, e eram – jamais conseguiram ou poderiam sonhar obter.
O mesmo se deu com João Cabral de Melo Neto. Assim como Eliot, Stein, Beckett, Lorca, Genet e tantos outros, João Cabral encontrou no teatro uma ponte através da qual sua poesia pôde estabelecer contato com o público que, sem o suporte da ação dramática, permaneceria distante, intocado. Foi por meio da peça Morte e Vida Severina que o poeta pernambucano encontrou um veículo capaz de superar o abismo que, segundo ele, separa hoje em dia o poeta de seu leitor. Essa ponte, Lau Siqueira encontrou na Agenda da Tribo e na Internet.
Mas é claro que, antes do problema da divulgação, o importante na poesia reside exatamente na construção e organização do material poético, sem as quais não há mídia ou marketing que tornem um poema interessante. A poesia em que não se percebem articulações formais, condensamentos lingüísticos, descobertas originais, não tem nenhum vantagem sobre a prosa mais banal, e não pode, assim, conquistar um público leitor que ainda tem que ser alfabetizado para o poético, para o jogo lúdico das formas. Formar o leitor crítico e lúdico; eis uma missão que só pode ser levada a cabo com uma poesia absolutamente rigorosa, caso contrário sempre há de perder para a prosa mais fácil e mais imediata.
São essas articulações, condensamentos e descobertas, aliados a um bom humor bastante irônico e autocrítico que sobressaem na poesia de Lau Siqueira. Sem rejeitar a experimentação inventiva e rigorosa das vanguardas, principalmente do dadaísmo anarquista de Tristan Tzara, do cubofuturismo de Maiakovski, da poesia concreta brasileira ou da poesia visual do uruguaio Clemente Padin, Lau trilha um caminho infelizmente raro na poesia brasileira contemporânea: o da experimentação sem preconceitos e a busca de uma dicção aparentemente espontânea, mas que é fruto de um intenso trabalho com a linguagem. Lição que nos deixaram poetas como Carlos Drummond de Andrade (nos seus melhores momentos), Manuel Bandeira e a parcela mais engenhosa e inventiva da obra dos “marginais” da década de 70 e do gaúcho Mário Quintana.
A desprentensão e aparente simplicidade da poesia de Lau Siqueira em muito lembram uma das influências explícitas em Sem Meias Palavras: Fernando Pessoa. “O poeta é um fingidor”, escreveu o criador dos heterônimos. Mas tanto se repete hoje este famoso verso, que muitos chegam a acreditar que para ser poeta é preciso ser falso. Esquecem-se "apenas" da continuação da estrofe: "finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". O poeta parte, portanto, de uma dor sua, real, integral. Só quem sente uma dor pode fingir outra que não sente. Só quem tem personalidade pode ser ator. Só quem tem personalidade poética, como Lau Siqueira, pode ser poeta.
Na poesia contemporânea brasileira, principalmente naquela mais incensada pela mídia – produzida no eixo Rio/São Paulo – abundam os poetas falsos, cheios de ousadias gastas, preguiça disfarçada de espontaneidade, pretensão passando por sofisticação, desleixo com a desculpa do pós-moderno, arcaísmos e purismos neoparnasianos. São falsos, fingidos, não fingidores.
Poucos poetas integrais reviram e revêem a tradição em busca do novo. Conhecendo-a, procuram nela fincar-se sem meias palavras. Conhecendo-se, buscam nas suas dores formas novas de fingi-las, transformando-as em poesia – palavras carregadas de forma e sentido: integrais. “Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra”, já escrevi há uma década. Só quem tem personalidade e coragem para escrever sem meias palavras pode interessar como poeta. Como este tal Lau: poeta integral.
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[1] Obra Completa (1a Edição); Rio de Janeiro; Nova Aguilar; 1994. pp.765 e 766.
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Conheça a participação do MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES nessa blogagem coletiva.
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O leitor e o livro ...

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Murilo Mendes

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25 de abr de 2008

MURILO MENDES

Murilo Mendes
Pintura de Alberto da Veiga Guignard
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Acabei de comprar o novo livro de MANUEL BANDEIRA : Crônicas inéditas I . Vou compartilhar com vocês o prazer da minha leitura:
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MURILO MENDES
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Haverá já lugar para as Musas nesta republica revolucionária ? ( Descansem os chefes de serviços públicos, não estou pedindo emprego para elas, sei bem que o famoso bonde vendido por Minas ao Rio Grande do Sul já vai com a tabuleta de LOTAÇÃO COMPLETA e leva mais gente que um trem de subúrbio da Central, às seis da tarde.)
Há sempre lugar para as Musas, fora, bem entendido, das repartições públicas. Mesmo quando os poemas não aparecem, elas andam como agora recolhendo matéria-prima das mais ricas para os poemas futuros. Os mais extraordinário, porém, é que um poeta esquisitíssimo escolheu este momento de barafunda para surpreender a gente com a sua poesia, revolucionária também, porque nela se prova um sabor de forte vida de instintos misturado à quintessência das metafísicas mais arrojadamente líricas ( Poemas editado em Juiz de Fora, na ocasião em que a mineirada desembestou a invadir São Paulo, Bahia, Goiás, Espírito Santo e estado do Rio).
Embora estes versos não falem da revolução, pode-se relacionar desde logo o poeta com ela e de maneira que o define imediatamente, citando o seu último poema inédito, o qual pertence àquele gênero que o Mário de Andrade denominou com muita graça de poemas-piadas. Ei-lo:
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A maior batalha da América do Sul
Não houve
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Este poema é uma delícia, porque dá bem idéia de uma cousa que o Jaime Ovalle descobriu e que por sua vez é também poema (decididamente os poemas estão batendo chifre de todos os lados): o Brasil é porque ainda não existe...
Os paulistas devem conhecer Murilo Mendes através da declamação de Eugênia Álvaro Moreyra, que tem incluído nos seus recitais a gozadíssima “Biografia do músico”, uma das mais perfeitas réussites de Murilo.
Mas na “Biografia do músico” está apenas uma das faces do poeta, a sua capacidade de observação e sátira, o seu humour a par da aptidão para aproveitar a riqueza poética expressiva do calão; Muriel, o quarto arcanjo, dá pinotes mais danados quando lhe bate o desânimo dos empregadinhos de banco ou de inquilino das pensõezinhas burguesas de Botafogo.
Então ele sobe alto, evolui em distâncias astronômicas, estrelas e palavras petecam em suas mãos de demiurgo às avessas destruidor de mundos desinteressantes e ingratos:
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Desaparece, gravura de primeira comunhão,
Some, primeiro olhar da namorada,
Corpo da prostituta da cidade sibilante,
Noite do crime, vida do amor, sombra do santo!
Desaparece,
Anjo da criação anterior,
Manequim da nebulosa vermelha ardendo no quarto de febre,
Vestido e sombra da mulher enorme e primitiva me tomando nos braços,
Apaga-te , mão de Deus me formando na manhã resplandecente,
Som, movimento, vontade, tempo, energia, desaparecei.
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Eu devia ter citado na íntegra esse “Canto do desânimo”, que é na verdade um dos mais fortes e belos poemas de agora. Há nele, de palavra a palavra, uma constante invenção de realidades líricas substituindo-se a tudo que o poeta destrói ou manda desaparecer na sua raiva de desanimado. E que jogo verbal possante em cada voz ou articulação.
Em muitos poemas de Murilo reflete-se, não sei se influência ou fruto de afinidade, um pouco daquele mundo estranho de Cícero Dias, como se o poeta quisesse dar-nos uma réplica literária ao lirismo plástico do pintor pernambucano. Sinto isso especialmente nos versos tão curiosamente intitulados “ Corte transversal do poema”. Em Murilo Mendes os cortes transversais são freqüentes.
Já citei um título curioso. O livrinho está cheio deles, porque os poemas começam muitas vezes desde o título: “Sonata sem luar quase uma fantasia”, um grupo de poemas forma mesmo um aparelho complicadíssimo que o poeta denominou “Máquina de sofrer”. E esse sofrer o que é? No caso de Murilo Mendes parece que é, com a obsessão de ancas, sovacos e outras sensualidades, um desejo desesperado, e impotente, para se liberar “ do mundo das formas”.
Mas enquanto não se dissipa esse mundo interposto entre o seu espírito e a eternidade, Murilo é um homem “que anda no ar”, que é, para felicidade nossa e talvez desinfelicidade dele, o ar do Brasil.
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Manuel Bandeira - Crônicas inéditas I . Editora Cosac Naify , p. 384-387
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O mundo encantado de Cecília Meireles...

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Ilustração de Sophia Cordeiro
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Ontem o meu blog O MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES completou 2 aninhos.
Se você passar para uma visita, vai conhecer os ganhadores dos dois desafios que fizeram parte da comemoração.
O blog é dirigido ao público infantil, mas quem é que disse que nós não somos mais crianças?
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20 de abr de 2008

Clarice ...

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"Morro de pena de meus personagens. Se eu pudesse, ah se eu pudesse, como facilitaria a vida deles, como lhes daria maior amor. Mas não posso fazer senão lhes dar esperança, e leves empurrões para frente. Só há um livro meu em que o personagem morre no fim. A todos os outros, eu deixo o caminho aberto: é só ter força ou querer passar. É com piedade e resignação que os deixo sofrer: que assombrosa coragem a minha: são filhos meus e no entanto abaixo a cabeça às suas dores. Por isso adio tanto em escrever um livro. Já sei como vou ser torturada e castigada, e como muitas vezes me sentirei impotente. Mas nada posso fazer: tudo o que vive sofre".
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Clarice Lispector
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18 de abr de 2008

Blogosfera contra o ANALFABETISMO !

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Estava comprometida com a blogagem contra o analfabetismo promovida pela Georgia do Saia Justa . Mas desde o dia 11, minha filha está enferma, precisando dos meus cuidados em tempo integral. Logo que ela se recuperar, colocarei nesse blog a minha participação.

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15 de abr de 2008

POESIA PARA A INFÂNCIA

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ESCREVEU CERTA VEZ Henriqueta Lisboa que não há poesia com destinatário. “Assim como não há céu especial para crianças, tempestades especiais, mares, florestas para cada classe de seres humanos...” Concluindo: “ Como todas as grandes coisas verdadeiras, a poesia é uma ”.
Faltava em nossa literatura para as crianças uma antologia da poesia brasileira inspirada nesse conceito. O que sempre houve até aqui era poesia especialmente composta para crianças. Partia-se do errado pressuposto que às crianças se deve falar de crianças. Ora, as crianças gostam de brincar com outras crianças mas querem ouvir histórias, não de crianças, mas de gente grande. Eu também já caí nesse engano de tentar escrever poesia para crianças. Um dia descobri crianças que gostavam de versos meus que são tudo o que há de mais impróprio para crianças. Até da “Estrela da Manhã”
Bem, não se devem pôr na mão das crianças poemas como a “Estrela da Manhã”. É possível , porém, colher na poesia para toda a gente, boa poesia que agrade também às crianças.
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Manuel Bandeira. Andorinha, Andorinha. Editora José Olympio, p. 217
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Pintura de Constantin Hansen

12 de abr de 2008

Abra Aspas para a poesia…

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BLOGAGEM COLETIVA

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No dia 28 de abril - Abra Aspas para a poesia…

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No dia 28 eu vou participar da blogagem coletiva "ABRE ASPAS" . Será um encontro promovido por Lunna Guedes que edita os blogs Acqua e Coletânia Artesanal .
Conheci a Lunna através da Luma e da Maria Augusta. Gostei dos seus versos e da maneira como se expressa nas suas postagens. Apaixonada por poesias, ela deseja, através dessa blogagem, ampliar ainda mais o espaço da poesia na blogosfera.
Quem for
participar, deve postar uma poesia e uma breve biografia do seu autor.
Participe ! No dia 28, abra aspas para a poesia !
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8 de abr de 2008

UM DESAFIO PARA VOCÊ !

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O MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES fará dois aninhos no dia 24 de abril. Para comemorar, haverá um desafio para as crianças e outro para os adultos . Gostaria muito que você participasse.
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Todos nós temos uma casa que faz parte da nossa história. Eu tenho a minha, escrevi duas vezes sobre ela quando era adolescente :
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É curioso: só vivi dois anos nesta casa,
e é nela que me parece estar metida
minha vida inteira!
(Éça de Queiros)
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A CONSTRUÇÃO
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Depois que papai morreu, mamãe quis logo se mudar, eram recordações demais. Começou uma construção em frente ao jardim: “Nova casa, nova vida, nada de recordações!”
No planejamento uma mistura do que havia de mais moderno: telhas Brasilit, forro Eucatex, elemento vazado para o fundo da garagem, pilares na varanda, sinteco nos quartos, bidê e box no banheiro, um luxo só !
Com nove anos, minha maior responsabilidade era fazer o pagamento das duplicatas em Adamantina. Adamantina ficava depois de Flórida Paulista, antes de Lucélia e de Oswaldo Cruz. Saía no trem das 8. Às 12 tudo estava terminado, mas o trem da volta só passava à noite. Enquanto esperava, procurava o jardim japonês, comprava pasteis de queijo e passava o dia comendo e pensando na vida.
Pensei e comi até a última duplicata. A casa, finalmente, estava pronta. Os materiais todos pagos. Tudo novinho em folha: cortinas, tapetes, colchas, lençóis. Tudo seguindo rigidamente o lema de minha mãe: “NADA DE RECORDAÇÕES!”
Doce ilusão...
(Leonor Cordeiro)
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Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!
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Manuel Banderia
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A MUDANÇA

A casa em frente ao jardim se misturava comigo, mas o dia da partida chegou. Mamãe vendeu os móveis, as cortinas, o liquidificador. Só tirou uns jogos de porcelana e de cristal.
Não entendia a facilidade com que as coisas ficavam para trás, pra mim elas tinham história, tinham vida. Mas a casa estava vendida e o dinheiro da venda, emprestado e perdido. A promissória guardo como relíquia, o último vestígio da casa em frente ao jardim. Mas as lembranças, essas passeiam por minha memória: corredores, quartos, salas, barulho de música, cômodos iluminados, pés de jaboticaba, de laranja, de limão, janelas que se abriam ao amanhecer ...
(Leonor Cordeiro)
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Cecília Meireles escreveu uma crônica chamada "Casas Amáveis". Leia essa crônica e faça um depoimento sobre a casa que marcou a sua história. Se o seu depoimento for escolhido você ganhará um livro da Cecília no dia 24 de abril.
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CASAS AMÁVEIS
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VOCÊS ME DIRÃO QUE AS casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha? Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.
Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.
As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)
Os jardins tinham suas deusas, seus anões; possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.) E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.
As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala. As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza. Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e sujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.) E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.Casas amáveis.

Cecília Meireles. Escolha o Seu Sonho- Editora Record, p.17-19
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Coloque a sua história no espaço dos comentários ou use o e-mail: leonor_cordeiro@uol.com.br

5 de abr de 2008

SOU PROVINCIANO


Acabei de saber pelo UOL, que a editora Cosac Naify lançará no dia 12 de abril o livro “Crônicas Inéditas”, formado por 113 textos de Manuel Bandeira.
Bandeira foi um dos poetas que eu amava na minha infância. Procurei uma das suas crônicas só para matar a saudade :
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SOU PROVINCIANO
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SOU PROVINCIANO. Com os provincianos me sinto bem. Se com estas palavras ofendo algum mineiro requintado peço desculpas. Me explico: as palavras “província”, “provinciano”, “provincianismo” são geralmente empregadas pejorativamente por só se enxergar nelas as limitações do meio pequeno. Há, é certo, um provincianismo detestável. Justamente o que namora a “Corte”. O jornaleco de município que adota a feição material dos vespertinos vibrantes e nervosos do Rio, - eis um exemplo de provincianismo bocó. É provinciano, mas provinciano do bom, aquele que está nos hábitos do seu meio, que sente as realidades, as necessidades do seu meio. Esse sente as excelências da província. Não tem vergonha da província, - tem é orgulho. Conheço um sujeito de Pernambuco, cujo nome não escrevo porque é tabu e cultiva grandes pudores esse provincianismo. Formou-se em sociologia na Universidade de Colúmbia, viajou a Europa, parou em Oxford, vai dar breve um livrão sobre a formação da vida social brasileira...Pois timbra em ser provinciano, pernambucano, do Recife. Quando dirigiu um jornal lá, fez questão de lhe dar feitio e caráter bem provincianos. Nele colaborei com delícia durante uns dois anos. Foi nas páginas da A Província que peguei este jeito provinciano de conversar. No Rio lá se pode fazer isso? É só o tempo de passar, dar um palpite, “uma bola”, como agora se diz, nem se acredita em nada, salvo no primeiro boato...
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(Crônica escrita para o Estado de Minas em 12.3.33, reproduzida com o título "Sou provinciano" em Andorinha, Andorinha, textos de Manuel Bandeira, seleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Editora José Olympio, pg. 04.)
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Uma observação:
Relendo essa crônica, achei graça quando ele diz: “provincianismo bocó” . Usei muitas vezes a palavra “bocó” na minha adolescência . Considerando que a crônica de Bandeira foi escrita em 1933, como sou antiga ....
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4 de abr de 2008

Clarice Lispector ...

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Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não
conhece como eu mergulhei.

Clarice Lispector
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Feira de Troca de Livros e Gibis

Katherine Streeter
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Chegou a temporada da Feira de Troca de Livros e Gibis promovida pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, escolha um parque e boa leitura !
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13 de abril - Parque do Carmo
Av. Afonso Sampaio e Souza, 951
Itaquera - Zona Leste
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27 de abril - Parque Chico Mendes
Rua Cembira, 1.201
Vila Curuçá - Zona Leste
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11 de maio - Parque Anhanguera
Av. Fortunata Tadiello Natucci, 1000 - (Km 24,5 Via Anhanguera)
Perus - Zona Norte
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18 de maio - Parque Cidade de Toronto
Av. Cardeal Mota, 84 -
City América/ Pirituba - Zona Norte
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8 de junho - Parque da Luz
Praça da Luz, s/n°
Bom Retiro - Centro
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22 de junho - Parque Santo Dias
Estrada de Itapecerica, altura do n° 4.800
Capão Redondo - Zona Sul
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Telefone para informações : 3675-6727

chama poética - centenário de Guimarães Rosa

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Prosa poética e música com o grupo:
No mesmo Barco
Grupo formado pelos músicos e atores:
Douglas Froemming: violão, guitarra
Juliana Caldas: voz
Luiz Grasseschi: voz, violão
Rafael Losso: voz, violão
Marcio Guimarães: baixo
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Os músicos:
Carmen Queiróz
Cecília Furquim
Everson Pessoa
Marines Mendes
Radamés
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Os poetas convidados:
Antônio Lázaro de Almeida Prado
Cássio Junqueira
Gildes Bezerra
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Organização e direção – Fernanda Almeida Prado
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Dia 5 de abril de 2008
às 18 horas
Casa das Rosas
Av. Paulista, 37
entrada gratuita
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2 de abr de 2008

(Sempre que Amanheço...)

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lembro-me de ti estrela da manhã,
quando tomba a noite nesta colina.
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lembro-me de ti Lisboa,
terraço virado a sul
para a basílica da estrela.
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lembro-me de ti,
planícies da saudade
sempre que amanheço
noutra cidade.
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no Alentejo, os sinos da igreja,
recordam a alegria de ver
o rio a passar.
o tempo é desejo cantado devagar.
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nesta aldeia o silêncio é terra,
as estrelas o grande mar...
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lembro-me de ti Lisboa,
quando a noite vira o mundo,
no outro lado do céu.
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sempre que os sinos tocam
lembro-me de ti,
planícies da saudade,
onde o mar nunca chega a espreitar.
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sempre que amanheço noutra cidade,
lembro-me de ti...
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Dia Internacional do Livro Infantil !

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2 de abril: DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL !
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"Ah! Tu, livro despretensioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... tu, sim, és um livro infantil, e o teu prestígio será, na verdade, imortal."
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Cecília Meireles
Problemas da Literatura Infantil - Editora Nova Fontreira, p.31
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.imagem: Sir Walter Firle