13 de mai. de 2008

KEDERE !

Minha menina chegou da escola perguntando sobre a comemoração dos 120 anos da Abolição da Escravatura. Dei uma passeada pelos blogs e pelas capas dos jornais. Foi um passeio rápido, logo percebi que a notícia não estava sendo muito divulgada.
Não esperava encontrar balões coloridos de festa, também sei que a abolição continua incompleta, que a população negra em sua maioria esmagadora continua a viver à margem da nossa sociedade. Mas esse silêncio chega a ser constrangedor, claro que existe um significado para tudo isso, um significado que apenas confirma que a exclusão do negro continua firme nesse Brasil de hoje.
Apenas na capa da FOLHA DE S.PAULO encontrei uma notícia relacionada com o mapeamento feito pelo IBGE sobre a distribuição da população negra no Brasil : "... os pesquisadores apontaram uma coincidência entre a alta concentração de população negra (pretos e pardos autodeclarados ao IBGE) e os portos que atuaram como receptores de escravos: São Luís (MA), Salvador (BA), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ).A capital fluminense tem 9,4% de pretos e 30,8% de pardos, enquanto Porto Alegre (RS) tem apenas 8,7% de pretos e 7,8% de pardos.O trabalho do IBGE, obtido pela Folha, aponta ainda a permanência dos negros em regiões para as quais eles se deslocaram de acordo com o desenvolvimento da economia durante a escravidão, como o litoral nordestino e o interior do Maranhão e do Piauí."Esse mapa possibilita a identificação espacial da população negra no Brasil, e isso certamente vai ajudar os nossos gestores a produzir políticas públicas que visem a inclusão e a redução da desigualdade racial no país", disse à Folha o ministro Edson Santos (Igualdade Racial)."

Na minha visita passei pelos Top 100 blogs brasileiros segundo o Technorati". Nessa lista, apenas dois blogs comentaram o assunto:

Blog do Juca : A Lei Áurea e o futebol

o biscoito fino e a massa : 120 anos da Lei Áurea e a ação de inconstitucionalidade contra as cotas

Continuando a minha procura, encontrei mais alguns espaços que promoveram uma reflexão sobre essa data, mas essa reflexão aconteceu principalmente nos blogs ligados a educação e aos movimentos sociais.
O silêncio dos blogs e das primeiras páginas dos jornais você já conhece, agora o que dizer sobre o silêncio que impera em nossas escolas em relação ao descomprimento da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 ?

"Art. 26-A :
Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
.§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
.§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras."

Por tudo isso, escolhi a palavra Kedere, para dar título a essa postagem. Kedere no idioma Iorubá, significa ESCLARECER.
Numa sociedade tão desigual como a nossa, muita coisa precisa ser esclarecida para que na prática, a abolição se torne real.
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(Continuando com Fernando Pessoa ...)

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[163]
TUDO QUE FAÇO ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
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Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço -
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Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
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Fernando Pessoa, Cancioneiro. Poesia Completa, Editora Nova Aguilar, p. 172
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Fotografia : Jon Sullivan

11 de mai. de 2008

O mundo não é maternal...

Gustav Klimt - Mother and Child
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O MUNDO NÃO É MATERNAL...
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É bom ter mãe quando se é criança, e também quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passamos fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.
O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere com ferro será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim, de slogans e estatísticas.
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta, exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.
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Martha Medeiros

Minha mãe ...

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Minha mãe pescando no Rio Verde em 1950...
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ORFANDADE
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Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.
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Adélia Prado , Bagagem. Editora Guanabara, p. 22
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10 de mai. de 2008

RANCOR

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Andrew Wyeth
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Não sou seu pai nem a revista molhada sobre a banqueta do seu banheiro. Não quero ser o cinzeiro que mobília a sua casa na espera de visitas. Não tenho mais paciência para carregar tanta culpa daqueles tempos que você insiste em dizer que eram melhores do que em hoje em dia. Que fique claro, como sempre foi a minha conduta, das minhas manias, dos meus rituais e, agora, da minha vida. Essa que você não entende. Entende? Que agora eu tenho fogão, panela quente e que meu afeto não é ausente. Mas é condimento do meu bem querer. De gaiolas nunca gostei. E, que eu saiba, nem você. Então me deixe viver. Assim no clichê dos sofás, das tardes com sexo, pipoca e risadas, da noite que quer acabar cedo, da preguiça dos lugares alheios, da minha idade avançada. Quero estar velhinha, chata, escondida. Quero escolher aonde vou, o horário de sair e entrar. Sabe... Ando com preguiça da mocidade, dessas atrocidades de “não-sei-bem-o-que”. Sim, já fiz tudo isso, mais o verso, inverso e não pretendo sujar os pratos que comi. Volto a dizer: o tempo é meu de direito. É certo. A minha paz depende daqueles que eu amo. Se não entende, não pretendo mesmo ser didática. O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso. Não insista. Em programa alheio, convidado não insulta o dono da casa. Nunca criei atalhos para quem eu sou. Respeite-me. Não sou mulher de recados, não me aborreça com suas verdades, com conclusões mal fundadas. Essa é uma rua errada. Não cause acidentes impensados, por favor. Desacelere e eu freio. Ninguém aqui quer atropelamentos, não é mesmo? Por enquanto o parque está fechado para reparos.
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