21 de jun. de 2010

Ruy Belo ...

.
E TUDO ERA POSSÍVEL
.
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
.
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
.
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
.
Ruy Belo
(In Homem de Palavra(s), Liboa, Editorial Presença )
.

20 de jun. de 2010

Helena Kolody...

.
.

LONGE
.
Às vezes,
tudo é tão longe em mim...
Meu viver parece uma história
que alguém sonhou
há muito tempo,
num país distante.

.
Helena Kolody

(In VIAGEM NO ESPELHO, Edições Criar, Curitiba, 2001, p. 65 )

..

19 de jun. de 2010

Sobre a poesia...

.
.
.
"A poesia vem como uma febre. De repente lhe vem e aí você agradece. Você nem sabe explicar por que tem esse dom".


Hilda Hist
(Fonte: Correio Braziliense, 15/02/1998 )

.

.

18 de jun. de 2010

José Saramago...

.
.
.
.

"Agora há unanimidade quanto a José Saramago. Toda a gente diz que ele morreu. E é verdade."

José Saramago ...

.

Retrato do poeta quando jovem
.

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
.
José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981)
.
.
Poema à boca fechada
.
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
.
Só direi, Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
.
José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981)
.