30 de jun. de 2008

Sobre as bibliotecas ...

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Real Gabinete Português de Leitura - Rio de Janeiro



Um dia veio uma peste e acabou com
toda vida na face da Terra:
em compensação ficaram as bibliotecas...
E nelas estava meticulosamente escrito
o nome de todas as coisas!

Mario Quintana
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27 de jun. de 2008

100 ANOS DE JOÃO GUIMARÃES ROSA !

Hoje reli o GRANDE SERTÃO: VEREDAS, seguindo frases que eu grifei na minha primeira leitura :
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O sertão está em toda a parte. (p.8)

Viver é negócio muito perigoso. (p.10)

Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo ... (p.14)

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam . Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. (p.21)

Eu atravesso as coisas- e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mais vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso? (p 33)

Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. (p.37)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é nomeio da travessia. (p.60)

Viver é um descuido prosseguido. (p.65)

O sertão é do tamanho do mundo . (p.68)

Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo! (p.81)

Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. (p.92)

Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas – isso procuro. (p.143)

Esta vida está cheia de ocultos caminhos. (p.144)

Sertão é isso, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo. Dia da lua. O luar que põe a noite inchada. (p.146)

Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra . (p.162-163)

Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que o que é bonito e bom. (p.174)

Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. (p.176)

A noite é uma grande demora. (p.191)

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende . (p.289)

Meu coração é que entende, ajuda minha idéia a requerer e traçar. (p.290)

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. (p.291)

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia . (p.297)

Ser forte é parar quieto; permanecer. (p.392)

O sertão não tem janelas nem portas. (p. 462)

A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver. (p.471)

O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver – não é? – é muito perigoso. Por que ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração? (p. 546)
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João Guimarães Rosa, Grande sertão : veredas . Editora Nova Fronteira , 1984.

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25 de jun. de 2008

BANZAI MARIA KAWASHIMA !

INFÂNCIA
Um gosto de amora

comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
(Guilherme de Almeida)


Sra. Maria Kawashima
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Casamento de Sumiko e Hiroshi


Festa de casamento de Sumiko e Hiroshi
(Eu tinha 11 anos e estava muito feliz ! )
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Saindo de Pacaembu, passando pela rodovia, virando à direita na altura da Companhia de Força e Luz, seguindo pela estrada até a ponte do córrego, subindo a ladeira, entrando à esquerda e andando mais uns 500 metros, finalmente, eu chegava ao sítio dos Kawashima.
Dona Maria Kawashima era comadre de minha mãe. Uma imigrante batalhadora que com sabedoria, dignidade e muito trabalho, criou os filhos sozinha depois de ter ficado viúva. Com Dona Maria e a sua família, aprendi valores e costumes de uma típica família japonesa daquela época.
A casa simples de madeira, encravada no meio do cafezal ficava em frente ao terreiro onde, na época da colheita, os grãos eram esparramados em camadas finas para a secagem. O verde da plantação toda enfileiradinha fazia zigue zague pela boa terra do oeste paulista. Quando vista de longe pelos meus olhos de menina parecia um grande bordado enfeitado com pontinhos vermelhos do fruto maduro.
Entrar naquela casa era sempre uma alegria, a primeira sala tinha em suas paredes algumas pinturas e várias folhinhas com cenas do Japão. Esparramadas pela mesa ventarolas coloridas eram logo oferecidas aos visitantes para aliviar as quentes tardes da Alta Paulista.
A primeira grande preocupação da anfitriã era oferecer a quem chegava uma mesa farta. Enquanto Dona Maria conversava com minha mãe, suas filhas imediatamente se dirigiam à cozinha para preparar sucos, doces e comidas típicas.
Com Dona Maria aprendi a gostar de alguns pratos da comida japonesa. No pilão (ussu), que ficava perto do tanque, a Darcy batia o arroz com uma grande marreta de madeira (tsuchi). Aos poucos tudo se transformava numa massa e, nas mãos habilidosas da Emília, surgia o moti. O meu doce preferido era o Anko (doce de feijão azuki). Eu me lembro da Darcy e da Emília no quintal perto da cozinha espremendo o azuki num pano branco e fininho para que toda a água fosse retirada. O Anko também estava presente no Mandiu, uma massa de trigo recheada com o doce de feijão. Podia ser cozido ao vapor (Fukashi-mandiu) ou assado (Yaki-mandiu).
Com Dona Maria aprendi a gentileza de saber presentear. Nunca ela visitou minha casa sem levar uma lembrancinha, um pequeno presente, um omiyage.
Dona Maria me ensinou muito mais do que palavras como konnichiwa, konbanwa, sayoonara, okaasan, otoosan, obaasan, ojiisan, arigato gozaimashita. Com ela aprendi o que era guiri. Ela nunca pronunciou essa palavra, mas em seus pequenos gestos demonstrou que o espírito de gratidão (guiri) estava presente em seu coração e no coração da sua família. Esse sentimento nobre que ela oferecia as amigas foi o maior ensinamento que recebi dessa imigrante tão especial na minha infância.
BANZAI MARIA KAWASHIMA ! BANZAI! BANZAI! BANZAI!

18 de jun. de 2008

BANZAI! BANZAI! BANZAI! 100 ANOS DE IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL!

hyaku nen no
keshiki o niwa no
ochiba kana
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Cem anos de idade —
A paisagem das folhas
Caídas no jardim.
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Bashô
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Nasci em Pacaembu, uma cidade colonizada principalmente por imigrantes japoneses. Cresci entre dois grupos que marcaram a minha maneira de viver e de amar, de um lado os japoneses, do outro, os italianos.
Comemorar os 100 anos da imigração japonesa no Brasil, é falar sobre uma parte da minha história.

Pacaembu no final da década de 40
Pharmácia Moderna e Alfaiataria SSAITO

Palavras escritas nas duas línguas

Minha mãe com uma das suas afilhadas

Família amiga

Aniversário de um amiguinho
(Sou a primeira menina do lado esquerdo da foto)

Amigas queridas do grupo escolar


BANZAI FAMÍLIA MYIATA !


Os Myiatas formavam uma grande família e viviam todos juntos na casa principal da fazenda.
Maria Myiata sempre se hospedava em minha casa, por causa dos tratamentos que fazia. Dizia que seu estômago estava caído, usava um colete apertado, mas não conseguia se livrar do problema.

Maria Myiata

Maria acompanhou minha mãe em sua árdua luta contra o meu primeiro incômodo: um umbigo saltado na barriga. Fizeram de tudo, usaram moedas, amarraram coisas, colocaram misturas caseiras, mas nada adiantava. Foi quando conheceram uma benzedeira que fazia milagres.
E lá fomos nós para a benzedeira: Maria, mamãe e eu. Seguimos o ritual ao pé da letra, sem faltar ou atrasar um dia sequer. No sétimo dia, a surpresa: o umbigo misteriosamente já estava no lugar.
Seu Myiata trouxe do Japão uma arte que estava relacionada com o cotidiano dos japoneses, o artesanato com bambu. Ele passava horas sentado num banquinho, mergulhado entre a saudade da sua terra e a criatividade. Enquanto trabalhava, surgiam balaios, peneiras, lanternas, móveis , sombrinhas, leques... Objetos que eram presenteados aos filhos, vizinhos e amigos.

Mamãe e o Pé-de-bode

Certo dia, minha mãe alugou um Pé-de-bode, queria visitar os Myiatas. Num instante, já estávamos saculejando por aquele estradão de terra: mamãe, tia Alzira e eu. O carro era minúsculo, mal dava para respirar. No caminho passamos por uma ponte alta, ponte velha, estreita, depois começamos uma subida íngreme. No início, o carro já começou a mostrar sinais de cansaço. No meio, começou a falhar e, de repente, morreu. Morreu e foi despencando ladeira abaixo e só parou num tronco pertinho da ponte de madeira.
Não sei como chegamos no sítio dos Myiatas. Não sei o que minha mãe falou para o motorista quando a poeira baixou, mas sei que nunca mais andei de Pé-de-bode em toda a minha vida.
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osoki hi no tsumorite tôki mukashi kana
Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!
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( Na próxima postagem: BANZAI FAMÍLIA KAVASHIMA! )

17 de jun. de 2008

120 anos de Fernando Pessoa !

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TRAGO DENTRO do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
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Álvaro de Campos
Obra Poética - Editora Nova Aguilar, p. 341
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