Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Nascimento do poema

Dora em sua residência - Fotografia de Edu Simões
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É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.
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É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.
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E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.
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Dora Ferreira da Silva

Sábado, Novembro 07, 2009

Josué Montello...



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3 de maio (1973)
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O esquecimento é uma forma de silêncio. De silêncio absoluto. Vem com o tempo, que nos rói a memória. Pode ser um bem, pode ser uma mal. Apaga tudo, reduzindo a escrita ao papel em branco, com a sua lição de humildade.
Por isso mesmo, todo escritor, no começo da vida literária, deveria fazer um estágio de velhas revistas. Ali, no volver de cada folha, há sempre à nossa espera uma lição a recolher. Quanto ruído inútil em torno de certos nomes e de certas obras!
Andei folheando, de ontem para hoje, uma coleção de Fon-fon, entre 1929 e 1934. Ninguém mais famoso do que Bastos Portela. Do que Martins Capistrano. Do que Mário Poppe. Este último, crítico literário. Todos mudos. E esquecidos. Todos. Nem um deles chegou até nós.
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Josué Montello - Diário Completo (Volume I), p.1253

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Portinari...

Portinari - Meninos brincando (1955)
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A paisagem onde a gente brincou pela primeira vez
não sai mais da gente.

Candido Portinari
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Mais um presente do querido poeta José Carlos Brandão:.
Leonor, deixo-lhe aqui um sonetinho a Portinari - que fala justamente de brincadeiras, da infância:
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Portinari - Futebol (1935)
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A pandorga azul entre as nuvens e os pássaros
Brinca no céu azul.
Os anjos batem as asas brancas
Sobre o campo de futebol.
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São Jorge enfrenta o dragão na lua,
Candinho aprende que a vida é fábula.
São José conversa com a Virgem
Na pequena capela da Nonna.
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O menino morre nos braços da mãe,
Vai pintar a outra vida de azul:
A morte é azul como os olhos de Deus.
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Uma flor se abre nos olhos do menino
Suspenso no cosmo como um balão:
Candinho bate as asas brancas no paraíso azul.
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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

O leitor e o livro...

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Quarta-feira, Novembro 04, 2009

O apanhador de desperdícios

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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
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.Manoel de Barros

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Segunda-feira, Novembro 02, 2009

La carencia

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Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.
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Alejandra Pizarnik
( De Las Aventuras Perdidas )
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Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

ta_manco

Sandra Freij
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qual verso escreverei e com que rimas
e mágoa e dor iguais pisam por cima
se o sonho não resiste e a bailarina
quebrou o pé
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Terça-feira, Outubro 27, 2009

O lutador

A luta de Jacó com o anjo -Alexander Louis Leloir, 1865

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Lutar com palavras

é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito foge
me não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
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Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssima
se viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
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Palavra, palavra

(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
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Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
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Iludo-me às vezes,

pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entre
abrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
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O ciclo do dia

ora se conclui e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
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Carlos Drummond de Andrade - Nova Reunião, p. 94-97

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

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Nossa existência é tão fugaz que, se não escrevermos à noite o que aconteceu pela manhã, o trabalho nos atordoa e não nos sobra tempo para registrá-lo. Isto não impede que lancemos ao vento as horas que são para o homem as sementes da eternidade.

Chateaubriand, Mémoires d'outre-tombe
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Sexta-feira, Outubro 23, 2009

A canção do tédio

Toni Frissell

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Anda uma estrela pelo céu,

sozinha, arrastando um véu

de viúva.

- É a chuva.

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Rola um soluço leve no ar,

bem longo no seu rolar,

bem lento.

- É o vento.

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Perpassa o passo oco de algum

fantasma, quieto como um

segredo.

- É o medo.

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Batem à porta. Abro. Quem é?

Uma alta sombra, de pé,

se eleva.

- É a treva.

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Mas, desde então, alguém está

comigo. É inútil. Não há

remédio.

- É o tédio.

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Guilherme de Almeida

O leitor e o livro...

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