31 de dez de 2007

Receita de ano novo


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. Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
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Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
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Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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. Carlos Drummond de Andrade

28 de dez de 2007

27 de dez de 2007

O homem, a luta e a eternidade

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William Blake, Os Amantes, ilustração para o Paraíso de Dante
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Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
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Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
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Murilo Mendes

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24 de dez de 2007

NATAL

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Leonardo da Vinci - Adoração dos magos..
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(88)
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O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.
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E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
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Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
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A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
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Fernando Pessoa
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23 de dez de 2007

Cecília ...

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Fotografia de Leonor Cordeiro
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.Coitado de quem pôs sua esperança
Nas praias fora do mundo ...
- Os ares fogem, viram-se as águas,
Mesmo as pedras, com o tempo, mudam .
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Cecília Meireles
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21 de dez de 2007

Adélia Prado ...

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Constantin Hansen
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Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança...
"O que a memória amou fica eterno".
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Adélia Prado
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15 de dez de 2007

Rob Duiser

O leitor e o livro ...
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Fotografia de Rob Duiser
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CONDIÇÃO DO HÁBITO



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.nunca consegui ser pouco
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.com o tempo fui encolhendo os
braços e ressurgindo em asas
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zanzei pelo desvelo
de ser triste
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cometi agruras
e guardei algumas poucas e
necessárias euforias
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cumpro o rasgo que me cabe
quando por inteiro me revelo
em derme e em pelo
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e no que há de espesso
sou mesmo um sincero avesso
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Lau Siqueira

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14 de dez de 2007

SER POETA

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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
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É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
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É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
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E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
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Florbela Espanca
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Ouça o poema "SER POETA" cantado por Sara Tavares e Nuno Guerreiro.
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13 de dez de 2007

Adélia ...

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Ilona Toth Gombkotone
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"Pedro me deixa debater no vazio, não me leva a sério quando digo: um dos meus maiores desejos é fazer deste quintal um lindo jardim, um canteiro ali, uma árvore lá, um banco de pedra. Quando estou bem, esqueço, vou cuidar de outras coisas. Mas à primeira raiva desenterro o jardim que não existe, a parreira de chuchu que, se ele tivesse armado do meu jeito, estaria dando chuchu pro mundo inteiro, e uma prateleira especial que desejo na coberta, pra organizar coisas como o frasco de óleo de máquina, a bomba de bicicleta, o meu desejo de ordem, na fragmentação sem fim que é a minha vida e me produz cansaço e raiva, raiva e cansaço."
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Adélia Prado
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Os componentes da banda, p. 33
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12 de dez de 2007

Gabriela Kimura !

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Encontrei Gabriela quando visitei o seu blog Playground. Foi amor à primeira vista, me encantei com a sua maneira de lidar com as palavras.
Curiosa, desandei a procurar pistas que revelassem um pouco dessa menina. Gostei da entrevista feita por Marcelino Freire no
Portal Literal , ele começa apresentando Gabriela:
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“Gabriela é sansei. Gabriela é neta de japoneses, explico. Gabriela é paulista de Ourinhos. Gabriela mora em São Paulo. Gabriela tem "olhos em risco". Gabriela é das poucas escritoras que conheço com olhos desse tipo. Gabriela é das poucas que escrevem bem. Gabriela é das poucas escritoras sanseis que vi. Gabriela me lembrou Tereza Yamashita, também escritora. Gabriela ainda não ouviu falar de Yamashita. Gabriela é Kimura.”
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Gabriela é extremamente talentosa, me sinto feliz em poder compartilhar com vocês um pouquinho do que ela escreve:

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Da série VARAIS
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Não me lembro de ficarmos em tempo algum com medo da chuva. Só não sabíamos ainda o que era ser tempestade.
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Ilustração: Paulo Stocker
Texto:
Gabriela Kimura
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BOA NOITE, BOM DIA
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Papai foi embora da nossa casa levando caixas, malas e mais da metade da mamãe. Mamãe anda tão magrinha que penso mesmo que papai nunca mais vai devolver aquele tanto da mamãe que a deixava mais bonita. Agora ela anda pela casa de camisola e não cuida mais das plantas, não atende a campainha e queima o feijão.
E parece que esqueceu de brigar com os relógios e com os meus modos. Porque mamãe já não liga se hoje tem escola, chuveiro, roupa limpa, pasta nos dentes. Mamãe, penso, esqueceu da gente.
Porque papai saiu com pressa. Tanta que deixou a Margarida. Acho que adulto é assim, fica esquecido com o tempo. Papai gostava muito da Margarida. Mais do que da mamãe. Pelo menos é o que eu ouvia. Todo dia papai pegava a Margarida no colo, escovava os pêlos, olhava os dentes, dava comida, tirava o cocô. Boa noite e bom dia. Eu já quis ser como a Margarida. Também penso que cachorro é mais feliz.
Mamãe gostava do papai. Papai da Margarida. E agora, Margarida gosta de mim. Que sou o papai pra Margarida. Cuido da comida, dos pêlos e brinco de dar vacina. Até ficar grande e esquecido. E ir embora levando caixas, malas e mais da metade da Margarida. Que vai ficar magrinha, fazer cocô por toda a casa e ficar como a mamãe. Sozinha.
Quando eu crescer não vou ter memória. Nem fotografia. Boa noite e bom dia.
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Gabriela Kimura
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QUANDO A TERRA DESAPARECER
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Quando a terra desaparecer, talvez, quem sabe, nós não estejamos mais aqui. Eu sei, Alfredo, que você não acredita nestas coisas. Mas digo a você: não somos imunes a estas ações da natureza. Por isso insisto tanto nesta coisa que você chama de “fúria desenfreada”. A terra, meu caro, anda cheia até às tampas. E mesmo pessoas, como nós, correm o risco incômodo de sucumbir aos arroubos das enfermidades.

Sim, minha saúde está em perfeito estado. O que não está no eixo é essa sua cara aí perseguindo a gente o tempo todo. Você sabia que a Alice já reclama da vida? E ela tem apenas seis, seis anos! Algumas crianças nascem assim, com os olhinhos repletos de inconformidade. Lembra? Desde o peito até o bocejo.

Hoje sinto que os ânimos recomendam cautela. Mas quem tem o dom do recuo, da paciência completa? Veja se tem cabimento. Agora ela diz que chora de felicidade. Dessa intensidade eu não entendo. Nossa menina, um pequeno aparelho no máximo volume. Minha idade anda avançando e, se ainda me lembro, a sua também.

Penso que, bem lá no fundo, ela deve ter puxado algo de nós. Algo que perdemos na cruel velocidade do tempo. Sinto saudades da vontade de matar nossos desejos. Um a um. Como nas melhores batalhas. Sim, daria tudo para ver um horizonte sangrento. Mas você, Alfredo, não deixa. E insiste em nos perseguir pelos corredores. Usando a pior das desculpas: esta doença que você insiste em deixar que mande na gente.

Alice daqui a pouco será uma mocinha. E com a fome de um batalhão deixará esta triste casa para sempre. Ficaremos neste silêncio? Não creio. Porque acredite: quando a terra desaparecer será por minha competência. A cerrar, com muito gosto, esses olhos que não querem reconhecer que estão mortos há muito tempo.
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Gabriela Kimura

9 de dez de 2007

VIAGENS PEDAGÓGICAS !

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Quero mandar o meu abraço para a querida Jussara Pimenta

por sua participação em VIAGENS PEDAGÓGICAS.

Parabéns Jussara !

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3 de dez de 2007

PINTURA

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Van Gogh - Vinha vermelha em Arles - 1888
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Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.
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Ferreira Gullar
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Guignard...

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Alberto da Veiga Guignard - Paisagem mineira
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29 de nov de 2007

Novo livro de Cecília Meireles ....

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Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
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Clique na foto para assistir o vídeo
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"Todos os espetáculos de beleza que a vida não nos deixou realizar sairão, portanto, do mistério que os oprime, com a força invencível das ressurreições."
Cecília Meireles
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25 de nov de 2007

DONA DE CASA

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Tem dias que a poesia
já nasce pronta,com nome, vírgula
e ponto final
(de vez em quando ganho este presente).
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Mas em compensação
tem outros…
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alho e cebola
se compra a vida inteira.
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CONTUDO

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um dia
tudo em Deus estará contido:
a vida, o mundo
e seu estranho conteúdo.
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22 de nov de 2007

22 de novembro: Blogagem coletiva contra a dengue !

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PREVENÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO É A SOLUÇÃO !
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Essa blogagem coletiva foi proposta pela Meire do Pensiere e Parole .
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Resolvi transformar a minha participação num poeminha que

foi postado no MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES.

Mesmo que você tenha mais de 8 aninhos, é só clicar e ouvir :

21 de nov de 2007

CHEGOU O NOVO LIVRO DE LAU SIQUEIRA !

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Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside atualmente em João Pessoa-PB. Publicou os livros O comício das veias (Ed. Idéia-PB, 1993), O guardador de sorrisos (Ed. Trema, 1998), Sem meias palavras (Ed. Idéia-PB, 2002) e Texto Sentido (Ed. Bargaço-PE, 2007). Teve poemas incluídos na antologia Na virada do século — poesia de invenção no Brasil, organizada por Frederico Barbosa e Claudio Daniel (Ed. Landy-SP, 2002) e na antologia Nordestes, da Fundação Joaquim Nabuco e SESC/Pompéia. Publica seus poemas no Livro da Tribo (Ed. Tribo-SP) e no blog Poesia Sim.
Texto Sentido é o quarto livro do poeta Lau Siqueira. Nele constam poemas escritos entre junho de 2002 até a data da publicação, em outubro de 2007, pela Edições Bagaço de Recife. Trata-se de uma edição custeada integralmente pelo autor. E vai para o mercado da literatura brasileira contemporânea, por fora das distribuidoras, por fora das livrarias. A tentativa do poeta é de buscar um contato mais direto com o público leitor, onde quer que ele esteja.
“Não faço poemas pensando em vendê-los, como se fosse um produto. Poesia não tem preço. Caso fosse diferente, quanto custaria um livro de Drummond? Mas, o livro é sim um produto e precisa circular como um produto cultural. E mais: é preciso que se sustente por si só. Peixe-boi em terra de tubarões, sustento a dignidade de ter a poesia como principal patrocinadora dos próprios livros que escrevo,” afirma Lau Siqueira.
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TEXTO SENTIDO
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O novo livro de poemas de Lau Siqueira, Texto Sentido, é uma pergunta: com que intensidade vida e arte podem seguir adiante? Também são outras coisas: inventário de espantos, armação de nuvens, legado, baú. Depois é uma resposta feliz. Está na cara, em cada página. Quando se é poeta, é e pronto. Sem teses, sem tribos, sem rótulos. O que o seu livro é, incontestável: trabalho consciente com a linguagem. O que não é: plataforma de estéreis discussões. O leitor pode ter cem olhos ou pode ser míope, pode enxergar uma paisagem ou uma fechadura. Mas o livro está aí. E Lau traz abertamente um diálogo com seus viventes, seu jeito de mirar e acertar o alvo. Quintana, Leminski, Bashô, Augusto, Gisnberg, Pessoa. Como um cubo mágico, o que se gira cria outros problemas, sugere infinitas soluções.
Vem daí que em Texto Sentido Lau alterna os pólos, ora soa mínimo e exato, ora derruba a taça e espraia versos, arriscando soar verboso – embora não soe, pois está senhor do ritmo. Em alguns momentos as metáforas dão conta da beleza – e se sustentam só por isso, sem indicar o caminho: “os ventos são algazarras/ do infinito/ em nossos (...)”
Se há um projeto visível neste livro é o da diversidade: aliás, não há melhor resposta para a “inutilidade” da poesia. Ela é ciência das coisas que não se capturam por lógica e classificação. “ vastidão é um [átomo”, vaticina o poeta. Sob este aspecto, mesmo que fosse um logro – e qual livro não vacila no fio que separa o joio do trigo? – Texto Sentido toca adiante suas dissonâncias e harmonias: “Estirando/ espinhos para o mundo/ um cacto resiste”.
Lau Siqueira tem uma trajetória pautada na resistência. Faz porque quer fazer, porque gosta e porque tem consciência de linguagem. Namora com o texto solto, de grande fôlego enquanto pisca o olho para a noção espacial de que a página é uma arena que comporta funções. Faz dos poemas quartos de pensar, de ir seguindo em frente, de estruturar e decidir o que é relevo, o que é ranhura. Tudo faz mais sentido do que pedir licença para um ou para outro para exercer um rótulo. E isto Texto Sentido parece não aceitar. Daí soar honesto nas qualidades e defeitos.
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André Ricardo Aguiar
(Jornal A União, PB, 23/11/07)
*André Ricardo Aguiar é jornalista e poeta e escreve às sextas-feiras para o jornal A União.
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Como adquirir o livro:
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Em João Pessoa - na banca de artesanato do Marinho, na Praça da Alegria, na UFP
Pela internet - Loja Virtual

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12 de nov de 2007

Paul Valéry ...

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"Sou mutante. Não anseio a majestades cristalizadas em palavras que não voltam atrás. Eu volto palavras, gestos e sentimentos. Mudam tempos, momentos, situações, mundo... Por que não mudo eu? Livrai-me do engessamento burro da prepotência! Peço desculpas e me sinto aliviada. Se o outro vai desculpar ou não depende do grau de irredutibilidade dele. Aí já não é comigo. Repensar é consertar. "Eu não sou sempre da minha opinião." Considero a sua e, se for o caso, reconsidero a minha." (Paul Valéry)

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QUASE QUE EU PERCO O TREM !

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Estava passando tranquilamente pelo Boombust quando percebi essa postagem:


Gente, que cochilo ! É a velhice dando sinais através do esquecimento .

Consegui me salvar, minha inscrição já foi confirmada ...

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17 e 18 de novembro

Local: Museu das Telecomunicações

End: Av. Afonso Pena, 4001

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( Álvaro de Campos)

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Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheia de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola, numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
como a parte da praia onde o mar não chega.
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Álvaro de Campos
(Obra Poética , Editora Nova Aguilar, p. 406)
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11 de nov de 2007

VÉSPERA

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No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
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A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
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recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
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A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
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Paulo Henriques Britto
( Macau, 2003)
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9 de nov de 2007

UM VISITANTE

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Pieter de Hooch
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Quem escreve
é
um visitante
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Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
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Escreve o que eu nem supunha
Assina o meu nome
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Eunice Arruda
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7 de nov de 2007

Cecília Meireles...

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Gregory Williams
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Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa ...
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E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.
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Cecília Meireles
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..Do poema - Diálogo -
Obra Poética - Editora Nova Aguilar, p. 107
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5 de nov de 2007

Lau Siqueira ...

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Henri Matisse
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Escrever, para mim, é uma grande brincadeira. É o prazer que me conduz pelas palavras! Lembro de um amigo que escreve bons poemas mas, quando eu elogio ele diz: "escrever é coisa séria. Isso aqui é brincadeira." Discordo frontalmente do meu amigo. Escrever é uma brincadeira honesta com as palavras mas, uma brincadeira, "uma aventura planejada" (como diz Pignatari). O que o meu amigo entende por sério é, exatamente, o ranço acadêmico do saber absoluto. E o saber é um mundo muito vasto para estar encerrado em um conceito ou receituários dogmáticos. Escrever é não temer o abismo da próxima vírgula. Escrever poemas é escrever vírgulas, pausas na vida do Império Prosa.
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Lau Siqueira
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3 de nov de 2007

NOVEMBRO SESC IPIRANGA

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Direção:
Fernanda Almeida Prado
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SESC IPIRANGA
Rua Bom Pastor, 822
dia 10 de Novembro às 18:00h
área de convivência
gratuito
telefone: 11 3340-2000
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2 de nov de 2007

Lindolf Bell ...

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Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

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70%

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Todo golfinho tem um pouquinho de tubarão
Todo ateu tem algum tipo de deus no coração
Todo cordeiro tem um pouquinho de lobo
Todo geninho tem um pouquinho de bobo
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100% não existe
Ninguém é somente triste
100% gato mia
Ninguém é só alegria
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Todo golfinho tem um pouquinho de tubarão
Toda gazela tem um pouquinho de leão
Todo cordeiro tem um pouquinho de lobo
Todo geninho tem um pouquinho de bobo
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André Abujamra
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31 de out de 2007

Menino doente

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Andrew Wyeth
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Eram o pião, a bola, o realejo,
o trem de corda, a caixa do brinquedo
de armar. Longe da escola, eram os
dedos da mãe, penteando-lhe os cabelos,
a fruteira no quarto, o açúcar-cande,
o resedá por cima da atadura.
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Entre a cama e a janela, era o menino
com medo, não da doença, mas da cura.
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Mauro Mota
(Itinerário – Editora José Olympio)
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28 de out de 2007

TRÊS parceiros, meus amigos para sempre ...

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TRÊS parceiros, meus amigos para sempre...
A amizade com Hélio Pellegrino começou no Jardim de Infância em Belo Horizonte, ambos com seis anos de idade. Depois fomos colegas de grupo escolar e de ginásio. Embora ele tenha ido então estudar Medicina e eu Direito, continuamos amigos a vida inteira, conforme narrei no livro “O Tabuleiro de Damas”.
Com Otto Lara Resende, o primeiro encontro foi na adolescência, em casa de João Etienne Filho, do jornal católico O Diário, que nos emprestava livros. Otto me revelaria mais tarde que ficou impressionado comigo porque eu conhecia marcas de automóvel, era campeão de natação e só falava futilidades. Já havíamos estado juntos anos antes: foi no meu tempo de escoteiro. Ele também era escoteiro em São João Del Rei, e veio numa delegação a Belo Horizonte nos visitar. Na sede da nossa Associação havia um fio elétrico desencapado junto ao soalho: a brincadeira era pisar onde dava choque e passar o choque para quem nos segurasse a mão. Otto costumava dizer que levou a vida inteira tentando lhe dar esse choque... Passamos a nos ver quase toda noite na Folha de Minas, onde eu já trabalhava, ou nos bares vizinhos, juntamente com o Hélio, de quem ele também se tornara amigo. Logo o Paulo se juntava a nós.
A primeira vez que vi Paulo Mendes Campos foi na varanda da casa do cônsul inglês, durante uma festa em que havia entrado de penetra (provavelmente ele também) para namorar uma menina. Eu já havia reparado naquele rapazinho de cabelo caído na testa, que passava o tempo todo de lá para cá na varanda onde estávamos (se não me engano já meio triscado), empatando o nosso namoro. Acabamos os dois iniciando ali mesmo uma discussão sobre literatura, cada um querendo mostrar mais conhecimento que o outro, para impressionar a menina. Um de nós (como já tive ocasião de contar, sem revelar qual dos dois para não ser deselegante) sustentava que Dom Quixote era escrito em versos.
Ficamos amigos, e a discussão, como o choque no Otto, se estendeu pela vida afora (não sobre Dom Quixote, é claro).
Andávamos dia e noite juntos, os quatro (ou três, para falar mal do ausente), conversando sem parar – éramos o que se poderia chamar de peripatéticos. Havia um banco na Praça da Liberdade, o nosso banco, onde invariavelmente encerrávamos a noite, às vezes já nascendo o dia. Era ali que “puxávamos angústia”, espécie de ritual daquilo que chamávamos, parodiando Unamuno, de “sentimiento trágico de la vida”
Nossos sentimentos não diferiam dos que nos podiam inspirar outros amigos. A singularidade talvez estivesse na espontânea convivência diária em Belo Horizonte e depois no Rio (com viagens de permeio) durante cerca de cinqüenta anos. Uma convivência nem sempre muito tranqüila - às vezes sujeita a chuvas e trovoadas. Mas ao longo da vida me dei bem igualmente com todos os três, cada um a seu jeito. Hélio, o apaixonado, o possuído, o destemperado – eu, mais contido e organizado, mas ao mesmo tempo desastrado e obsessivo (ou obsedeque, na linguagem pellegrinesca). Paulo, arisco, enigmático, reflexivo – eu, mais solto aberto, desabusado. Otto, indeciso, pessimista, deprimido – eu, extrovertido, otimista, intempestivo. Tínhamos pouca coisa em comum, além da paixão literária. E do senso de humor.
O meu otimismo um tanto exacerbado costumava provocar reações, principalmente face ao pessimismo declarado do Otto. Vivíamos todos em estado quase permanente de discussão. Discutíamos tudo, não importava o tema : da Nova República à Assunção de Nossa Senhora. Discussões tão acaloradas que mais de uma vez aconteceu trocarmos de lado só para continuar a discutir:
- O que você está dizendo é uma bobagem . Vou mostrar como devia defender o seu ponto de vista.
-Pois então mostre, que eu mostro o seu ...
Com isso a discussão jamais teria fim. Mas se me perguntem “E vocês se entendiam?”, eu diria que sim. Embora as divergências fossem fundamentais. Éramos sempre implacáveis, por exemplo, no julgamento da produção literária de cada um. E acredito que esse rigor crítico nos foi extremamente valioso: impediu que a gente escrevesse muita bobagem.
(Ou não impediu...)
Rebeldes, inconformados, nos insurgíamos contra a ordem constituída e tudo que representasse instituição, fosse a direção do Colégio , o Governo, a Cúria Metropolitana. Uns mais, outros menos, éramos católicos. Todo ano fazíamos a Páscoa dos Militares, recebendo Comunhão no meio deles. Por que dos militares? Idéia do Hélio – talvez para desafiar os donos do poder, que não podiam nos impedir.
Cada um evoluiu a seu jeito. Houve época em que Paulo andou tangenciando o Partido Comunista – talvez fosse apenas agnóstico. Hélio foi militante do PT – em matéria de fé, sempre era uma convulsão da natureza: reivindicava a aceitação do dogma da ressurreição da carne como postulado do seu Partido. Otto, voltado para um catolicismo mais vivenciado espiritualmente – nenhum de nós no fundo perdeu a fé, que eu saiba.
O que predominava mesmo vinha a ser a irreverência... Éramos intransigentemente contra as convenções e conveniências, a começar pela institucionalização de nossa amizade. Tanto assim que nunca conseguimos como amigos fazer juntos nada de útil, com a graça de Deus. Nunca fomos sócios em coisa alguma. Sempre fizemos questão de não tirar proveito de nossa tão espontânea amizade.
Deu trabalho a revisão destas cartas, já meio esfrangalhadas de tão antigas. Trabalho insano, tão somente justificado pela insanidade do remetente (e por extensão dos destinatários). Haja vista o tom descontraído do texto em geral, com as suas incorreções, distrações, distorções, repetições, contradições, alguns palavrões e outros senões. Ainda assim (ou por isso mesmo), é possível que o conteúdo da minha correspondência a eles dirigida ao longo de tantos anos dê pelo menos uma pálida idéia de como a relação que nos unia foi fundamental para cada um de nós.
Para mim, pelo menos. Posso mesmo afirmar que, se eu não tivesse conseguido fazer mais nada na vida, esta amizade tão intensa, duradoura e valiosa, já teria sido o melhor que eu poderia desejar.
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Fernando Sabino - CARTAS NA MESA - Editora Record
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25 de out de 2007

T. F. Simon

O leitor e o livro ....
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T. F. Simon - Vilma lendo no sofá
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EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR

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Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
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Adélia Prado
(Bagagem - Editora Guanabara)
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Fala Adélia !

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" De repente, nada é importante, o ar muda, transubstancia-se."
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Adélia Prado
(Os componentes da banda)
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24 de out de 2007

(recomeçar ?)

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"Desejo a máquina do tempo para que não haja o havido e eu recomece misericordiosamente."
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Adélia Prado - Os componentes da banda
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23 de out de 2007

IRMANDADE

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Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
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Octavio Paz
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Tradução de Antônio Moura
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