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2 de out. de 2010

Eugénio...

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Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
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Eugénio de Andrade
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22 de ago. de 2010

Éugenio...

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Que fizeste das palavras?

Que contas darás tu dessas vogais

de um azul tão apaziguado?

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E das consoantes, que lhes dirás,

ardendo entre o fulgor

das laranjas e o sol dos cavalos?

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Que lhes dirás, quando

te perguntarem pelas minúsculas

sementes que te confiaram?

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Eugénio de Andrade

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7 de ago. de 2010

As palavras

Jean Sebastien Monzani

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. São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
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Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
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Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
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Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
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Eugénio de Andrade
(De Coração do Dia )
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3 de jul. de 2010

palavras...

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Palavras
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Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
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A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha
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Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
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Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
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Sylvia Plath
(Tradução de Ana Cristina Cesar)

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13 de abr. de 2010

Manoel de Barros...

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VII
.O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.
.Manoel de Barros
in O Guardador de Águas, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2009, p. 63
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4 de nov. de 2009

O apanhador de desperdícios

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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
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.Manoel de Barros

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27 de out. de 2009

O lutador

A luta de Jacó com o anjo -Alexander Louis Leloir, 1865

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Lutar com palavras

é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito foge
me não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
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Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssima
se viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
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Palavra, palavra

(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
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Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
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Iludo-me às vezes,

pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entre
abrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
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O ciclo do dia

ora se conclui e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
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Carlos Drummond de Andrade - Nova Reunião, p. 94-97

27 de mai. de 2009

(sobre as palavras...)

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"O fato central da minha vida foi a existência das palavras
e a possibilidade de tecê-las em poesia."
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Jorge Luis Borges
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4 de mai. de 2009

Ofício

Casimiro Sainz Saiz
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Ofício
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Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada
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Maria Esther Maciel
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19 de nov. de 2008

Sobre as palavras ...

Picasso
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"Houve o tempo do sonho. No escuro das noites, todos sonharam palavras.Houve o tempo do acordar. Na luz das manhãs, todos acordaram palavras.Depois veio a coragem de presentear. Em cartas lacradas viajaram secretas palavras".
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Bartolomeu Campos de Queirós
(Apontamentos - Formato Editorial)
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A primeira pessoa que me falou sobre Bartolomeu Campos de Queirós foi a querida Sônia Viegas, numa aula de filosofia na UFMG.
Ainda não tive o prazer de encontrar Bartolomeu por essas esquinas de BH. Vou acabar pedindo ao querido escritor Ronaldo Simões Coelho que provoque esse encontro. Quero muito entrevista-lo no meu blog
O MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES.
No próximo dia 2 de dezembro durante a Feira Internacional do Livro em Guadalajara no México, Bartolomeu Campos de Queirós será premiado por ter vencido a
IV Edição do Prêmio Ibero-americano SM de Literatura Infantil e Juvenil.
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"El jurado decidió premiar al autor brasileño "por la trascendencia de su obra que se manifiesta en la profundidad de los temas que trata, el respeto por el lector y los retos a los que los enfrenta, el compromiso con el arte literario sin concesiones y el carácter poético y filosófico de su obra". Bartolomeu Campos de Queirós nació en Brasil hace sesenta y cuatro años. Autor de más de cuarenta libros para el público infantil y juvenil, destaca por su compromiso con la educación, con la formación de lectores y la promoción de la lectura, así como por el carácter altamente literario y poético de su obra. A lo largo de su trayectoria como escritor ha cosechado varios premios literarios como el Selo de Ouro da Fundaçao Nacional do Livro o la Bienal de Sao Paulo."
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BRAVO !
Viva Bartolomeu e seus livros!
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31 de ago. de 2008

PALAVRAS

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PALAVRAS
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Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.
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Albano Martins
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18 de jul. de 2008

(a magia das palavras...)

Mario Quintana - Foto de Liane Neves
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A magia das palavras num poeta deve ser tão sutil que a gente esqueça que ele está usando palavras.

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Mario Quintana

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11 de jul. de 2008

Palavras

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O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
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4 de jul. de 2008

(ouvindo Murilo...)

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A palavra nasce-me
fere-me
mata-me
coisa-me
ressuscita-me

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Murilo Mendes, Poesia Completa e Prosa. Editora Nova Aguilar, p. 738
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