23 de out de 2010

2 de out de 2010

Eugénio...

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Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
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Eugénio de Andrade
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28 de set de 2010

Vigília

Gustave Doré
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Ardem
sombras
no ocaso

pedras
moem
sonhos
.
céus
abatem
quixotes
.
(sonho
sombrio
.
que a vida
abrevia)

ardem
sombras
no ocaso
.
Marco Lucchesi
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8 de set de 2010

Epílogo...


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EPÍLOGO
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Finda a leitura, o livro está completo
em sua solidão mais-que-perfeita
de couro falso e íntimo papel.
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Lá fora, o mundo segue, arquitetando
as mesmas contingências costumeiras
que nunca esbarram numa irrefutável
.
conclusão que se possa resumir
em três letras letais, inalienáveis.
Que paz será possível nessa selva
.
sem índices, prefácios, rodapés?
indaga, da estante mais excelsa,
o livro. Porém, nada disso importa,
.
se todas as dúvidas se dissipam,
com tudo mais, quando o bibliotecário
apaga as luzes, sai e tranca a porta.
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Paulo Henriques Britto
In Tarde. Companhia das Letras, São Paulo, 2007

4 de set de 2010

Clarice...

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(menina Clarice no Rio)

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Ter nascido me estragou a saúde.

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Clarice Lispector
in Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980. p.135

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1 de set de 2010

O aprendiz de poesia

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(...) Muito plagiei, a princípio. Primeiro timidamente, depois como um possesso. Castro Alves, companheiro de noitadas de meu tio-avô Mello Moraes Filho, emprestou-me sua revolta condoreira. Olavo Bilac cedeu-me o diamante com que cortava os duros cristais de sua poesia. Guilherme de Almeida presenteou-me com seu geraldysmo, sua reticência ilustre, seu sorriso imóvel e seus punhos de renda. Menotti deu-me seu lorgnon, seus crachás, seu jucamulatismo. Descia de Antero a Júlio Dantas, perpetrando ceias, desvendando seios, ai de mim. Abria a antologia à toa e esperava. Casemiro? Casemiro! E assim se foi povoando de negros caracteres impecáveis um grande livro de capa preta, rubricado "Prefeitura do Distrito Federal", sobre que, tenho a impressão, um funcionário qualquer, meu parente, havia feito mão baixa. Mas que importava? Era um livro belo, um caderno de perfeito almaço, da grossura da minha ambição de criar poesia, vasto bastante para o menino que queria voar com asas roubadas, essas que tão cuidadosamente punha nas omoplatas para o exercício noturno dentro de seu quarto dentro da Ilha dentro da baía dentro da cidade dentro do país dentro do mar dentro do mundo.
Um dia conheci um poeta como mandam as regras, com livro publicado e tudo o mais. Chamava-se João Lyra Filho, era moço nortista, apaixonado, e recitava Augusto dos Anjos por trás de uma cadeira. Augusto dos Anjos! Como me chocava aquela ousadia de palavras, a misturar a miséria ao sublime, o esterco à estrela, a podridão do túmulo à beleza da vida! Preferia Adelmar, para quem, naquele tempo, voltavam-se os olhos fiéis de João Lyra Filho como os do sacristão para o padre.
Certa vez, depois de uma noite de angústia, resolvi mostrar-lhe meus versos. Reunira-os sob o nome de "Foederis arca". Mas o poeta não gostou. Disse-me de modo brando que desistisse daquilo. Falou-me da predestinação poética, que eu não tinha. Meu negócio devia ser outro. Faltava-me aquele imponderável que os amantes do belo representam esfregando sutilmente a polpa do polegar contra a dos outros dedos, mas não como para indicar o vil metal: mais devagar, como a destilar a própria substância imanente da arte.
O poetinha aprendiz desistiu?
Coisíssima nenhuma! Prossegui firme, inabalável, entre alexandrinos, decassílabos e redondilhas, a perpetrar odes, sonetos, elegias, éclogas, cromos e acrósticos que dava fielmente às namoradas que fui semeando, da Gávea a Sabará.
Era o martírio da poesia, em todo o meu desvario.
.

*

Uma noite – eu tinha 17 anos – Otávio de Faria e eu fomos tocando a pé da Galeria Cruzeiro até a Gávea, onde ficava minha casa, na rua Lopes Quintas. Não era infreqüente fazermos isso, à base da conversa. Era um hábito da amizade entre o calouro e o veterano da Faculdade de Direito do Catete, aquele passeio noturno povoado das sombras de Nietzsche e da pantomima de Chaplin. Lembro-me que à meia-noite, bem alto, na estrada de Orion, brilhava uma lua como nunca vi mais cheia, a cabeleira solta, os seios nus, o olhar de louca a me varar o peito de súplicas e doestos.
Era tal o mistério dessa noite que agora mesmo, escrevendo na minha sala noturna, sinto os cabelos se me içarem de leve, como se fosse sentir novamente sobre eles a mão macia da lua cheia.
Deixei Octavio de Faria no seu bonde de volta e subi Lopes Quintas, rumo a casa. O sossego era perfeito, total o sono do mundo. Só às vezes, subitamente, dos espaços descia um braço de vento que varria as folhas secas da rua e empinava papéis velhos como hipocampos. Transpus, ansiado, a distância familiar que me levava para alguma coisa que sentia vir mas não sabia o que era. Em casa, galguei rápido as escadas para o meu quarto no primeiro andar, e fui sentar-me ofegante à escrivaninha antiga, a mesma que tenho hoje, a mesma que suportou na infância o peso da minha ambição de ser poeta. A janela estava aberta, e em sua moldura a lua viera se postar, os olhos cravados em mim.
Não sei como foi, mas sei que foi diferente de tudo o que sentia antes. Meus ouvidos, como conchas, pareciam recolher os ruídos mais longínquos do mar que estilhaçava em mim. Ouvi o sopro da noite, o cair das folhas, o germinar das plantas que boliam fora, na mata próxima ao Corcovado, e ali perto, no jardim. Pombas vazaram do meu coração, deixando-me dentro, a se debater, a grande ave inimiga que me feria com suas asas querendo sair também, fugir, voar para longe. Senti-me sem peso, sem dimensão, sem matéria. Meu ser volatilizou-se para a lua, transformado ele próprio em substância lunar. E comecei a escrever como nunca dantes, liberto de métrica e rima, algo que era eu mas que era também diferente de mim; algo que eu tinha e de que não participava, como um fogo-fátuo a crepitar da minha carne em agonia.

Linha por linha, como psicografado, o poema – o meu primeiro poema – começou a brotar de mim.



O ar está cheio de murmúrios misteriosos...


*
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Há algum tempo atrás terminei os trabalhos de correção de uma coletânea de meus poemas, a sair proximamente. Lembrei-me do meu primeiro poema, do primeiro poema em que me vi criando poesia, transformando a natureza, sendo a voz que existia em mim e não era eu. Estudei longamente a possibilidade de colocá-lo na seleção, mas não houve jeito. Era ruim demais. Mas, curioso! senti a forma como a querer, em vão, segredar-me imponderáveis.
Tive saudades do tempo em que a poesia para mim era isso: a noite, com suas vozes, a lua com seus véus, o silêncio noturno da terra a rolar no infinito. Tive saudades de Júlio Dantas, Adelmar Tavares, João Lyra Filho. De repente, a poesia fez-se tão exigente, o poeta fez-se tão lúcido...
Por que tiveste que passar, poesia inocente, poesia ruim, que eu fazia com os olhos nos olhos da lua? Por que morreste e deixaste o poeta calmo, firme, sóbrio dentro da noite sem mistério?
Outubro de 1953


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Vinicius de Moraes
in Poesia Completa & Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986. p. 606 - 609

30 de ago de 2010

Três dias com Guilherme de Almeida...

(terceiro dia)

Tony Ryder
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INTERIOR

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Havia uma rosa
no vaso. Veio do ocaso
a hora silenciosa.
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Guilherme de Almeida
in Encantamento, Acaso, Você. Editora UNICAMP, 2002, p.215

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29 de ago de 2010

Festival da Palavra

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(clique para ampliar)
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Festival da Palavra
UNESP Assis
dias 16 e 17 de setembro de 2010
Parceria UNESP Poiesis
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Idealizadores:
Mario Sergio Vasconcelos - UNESP Assis
Frederico Barbosa - Poiesis
Fernanda M. Bueno de Almeida Prado - Poiesis
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Mais informações no blog: FESTIVAL DA PALAVRA
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Três dias com Guilherme de Almeida...

(segundo dia)

Paul Cezanne
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O BOÊMIO

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Cigarro apagado
no canto da boca, enquanto
passa o seu passado.
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Guilherme de Almeida
in Encantamento, Acaso, Você. Editora UNICAMP, 2002, p.237
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27 de ago de 2010

Três dias com Guilherme de Almeida...

(primeiro dia)

Paul Sérusier
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PESCARIA.

Cochilo, Na linha

eu ponho a isca de um sonho.

Pesco uma estrelinha.

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Guilherme de Almeida

in Encantamento, Acaso, Você. Editora UNICAMP, 2002, p. 235


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25 de ago de 2010

Meus amigos blogueiros e as suas palavras...


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Poema em resposta as intempéries do vento


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Na terceira ordem do dia tu me disseste:
Vai, Assis, cumprir teus poemas em letargia
Eu pus palavras na algibeira e forjei um alforje
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Carregado de metalinguagem,
De girassóis e silêncio
De muitas repetições necessárias
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Para que o verso sempre soe diferente

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Assis Freitas

24 de ago de 2010

A um passarinho

. .
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Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis .
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. Deixe-te de histórias
Some-te daqui!
.

. Vinicius de Moraes
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in Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro,1986, p. 201
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22 de ago de 2010

Éugenio...

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Que fizeste das palavras?

Que contas darás tu dessas vogais

de um azul tão apaziguado?

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E das consoantes, que lhes dirás,

ardendo entre o fulgor

das laranjas e o sol dos cavalos?

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Que lhes dirás, quando

te perguntarem pelas minúsculas

sementes que te confiaram?

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Eugénio de Andrade

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18 de ago de 2010

Três dias com Florbela Espanca e Marcos Assumpção...

Terceiro dia...









DESEJOS VÃOS
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Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta a vastidão imensa!
Eu queria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho rude e forte!
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Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bom do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!
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Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
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E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras… essas… pisa-as toda a gente! …



.Florbela Espanca


Site do Marcos Assumpção

17 de ago de 2010

Três dias com Florbela Espanca e Marcos Assumpção...

Segundo dia...







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Mentiras

Aí quem me dera uma feliz mentira
Que fosse uma verdade para mim!
J. Dantas
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Tu julgas que eu não sei que tu mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?
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Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
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Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo de teu peito de granito...
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Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
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Florbela Espanca

Site do Marcos Assumpção.

15 de ago de 2010

Três dias com Florbela Espanca e Marcos Assumpção...

Primeiro dia...

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AMAR

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui...além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente

Amar! Amar! E não amar ninguém!

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.Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!.



Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

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E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

Site do Marcos Assumpção

Poesia na vitrola...


Eu a viola e Deus ...

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8 de ago de 2010

Cassiano Ricardo...

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Oscar Pereira da Silva - Paisagem rural

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"Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da estrada..."
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Cassiano Ricardo
(Trecho de Café Expresso)


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7 de ago de 2010

As palavras

Jean Sebastien Monzani

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. São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
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Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
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Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
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Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
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Eugénio de Andrade
(De Coração do Dia )
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6 de ago de 2010

Hoje é dia do poeta do Bexiga !

Há cem anos nascia Adoniran Barbosa, o poeta do povo, o sambista dos excluídos.

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Continue vivo Adoniran, pegue o trem das onze e volte para casa!

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4 de ago de 2010

Maria Limeira...

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EXTINÇÃO
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Se um dia dizimarem
todos os tigres
da face da terra,
eu vou virar onça-pintada.
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(Maria José Limeira)
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Maria Limeira onça-pintada
linda, valente, livre!
Sua alma passeia pelas florestas
sem medo das noites sem luar.
Maria Limeira onça-pantaneira,
olhar da natureza no cio.
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(Leonor Cordeiro)
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2 de ago de 2010

Final de viagem...

Ribeirão Preto ...
(Foto de Leonor Cordeiro)
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Terminaram as férias.
Em julho tive que diminuir as postagens pois estava longe do meu computador.
Obrigada por suas visitas e pelo carinho dos seus comentários.
Grande abraço!
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MG - 050
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em meio a aridez da estrada
a plantação de girassol
pintou de amarelo o amanhecer
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Leonor Cordeiro
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25 de jul de 2010

Azul

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Gabriele Munter
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Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono

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Helena Kolody

(in Viagem no Espelho. Editora Criar, Curitiba, 2001, p. 48)

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23 de jul de 2010

16 de jul de 2010

Sobre a poesia...



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"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é a arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência, nem uma estética, nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta..."


Sophia de Mello Breyner
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6 de jul de 2010

AVE FRIDA !!!!

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón nasceu em 6 de julho de 1907 em Coyoacán, nos arredores da Cidade do México.
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"Sinto-me mal, e ficarei pior, mas vou aprendendo a estar sozinha
e isso já é uma vantagem e um pequeno triunfo."
(Frida Kahlo)
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''Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor."
(Frida Kahlo)
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"Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos,
só pintei a minha própria realidade."
(Frida Kahlo).
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''Não estou doente. Estou partida.
Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar."
(Frida Kahlo).
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O leitor e o livro...

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Ivan Olinsky

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3 de jul de 2010

palavras...

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Palavras
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Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
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A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha
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Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
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Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
.
Sylvia Plath
(Tradução de Ana Cristina Cesar)

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29 de jun de 2010

Quatro dias com Cassiano Ricardo ...

Dedico essa postagem ao poeta José Carlos Brandão .
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Quarto dia...

Jacek Yerka
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Relógio
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Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.
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Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.
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Ser é apenas uma face
do não-ser, e não do ser.
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Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.
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Cassiano Ricardo
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28 de jun de 2010

Quatro dias com Cassiano Ricardo...

Terceiro dia ...
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Wyeth Andrew .
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Imemorial.

Não fui quem sou, quando nasci.
.
Nem sou quem sou, quando amo.
Nem quando sofro.
Porque coexisto. Porque a angústia
é uma herança.

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Só me aproximo de mim mesmo
quando fujo,
atravesso a fronteira,
ou me defendo, ou fico triste.

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Ou quando sinto a rosa
secreta e quente da vergonha
subir-me à face.

.
O mar me bate à porta,
como um grito da origem.
Mas como descobrir
a onda imemorial que me trouxe?
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Cassiano Ricardo
in Um dia após o outro,1947
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27 de jun de 2010

Quatro dias com Cassiano Ricardo...

Segundo dia:
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POÉTICA
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1
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Que é a Poesia?
.
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
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2
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Que é o Poeta?
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um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
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Cassiano Ricardo
(In Jeremias Sem-Chorar. São Paulo, José Olympio, 1964)
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24 de jun de 2010

Quatro dias com Cassiano Ricardo...

Primeiro dia :
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Quando estou triste, leio Musset. Se a minha tristeza tem um sabor português (há uma tristeza para cada terra) recorro ao Antônio Nobre que é mais chegado à intimidade de minha raça. Quando estou áspero, exaltado no meu apego à terra, leio Euclides de Os Sertões. Quando necessito de mocidade para meu espírito, leio o velho João Ribeiro nacional ou o velho Bernard Shaw estrangeiro. Quando fico meio céptico, que fazer? Sirvo-me do Anatole dissolvente para dissolver em água-de-rosas o meu cepticismo. Quando me ponho a brincar com realidades mais sérias, leio o incrível Wells. Quando quero escarnecer dos homens, leio Voltaire. Quando estou farto de artifício literário e procuro maior soma de verdade humana e profunda, leio Cervantes. Quando me enfastiam as verdades correntes ou os conceitos usuais da vida, agarro-me a Chesterton. Poderia fazer o contrário: ler Voltaire ou Juvenal quando me sentisse triste e Musset ou Antônio Nobre (ou o nosso Rodrigues de Abreu, tão humilde na sua desesperança) quando me sentisse alegre. Mas não. O mal cura-se com o próprio mal. O bem paga-se com o próprio bem. A estante de minha sensibilidade é feita de momentos. E cada escritor tem, aí, o seu momento próprio e inevitável. Também, quando quero ser simples ou ser eu mesmo, expulso essa gente toda do meu convívio. Abro a janela que dá para a vida e restabeleço, como disse alguém, as minhas relações líricas com a Natureza. E faço de cada dia uma página branca. E faço de cada noite uma reticência de estrelas..."
.
Cassiano Ricardo
.
.
Encontrei essa preciosidade lendo o discurso de posse de Cassiano Ricardo na Academia Brasileira de Letras.
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O leitor e o livro...

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( J. Crew)
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21 de jun de 2010

Ruy Belo ...

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E TUDO ERA POSSÍVEL
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Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
.
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
.
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
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Ruy Belo
(In Homem de Palavra(s), Liboa, Editorial Presença )
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20 de jun de 2010

Helena Kolody...

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LONGE
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Às vezes,
tudo é tão longe em mim...
Meu viver parece uma história
que alguém sonhou
há muito tempo,
num país distante.

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Helena Kolody

(In VIAGEM NO ESPELHO, Edições Criar, Curitiba, 2001, p. 65 )

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19 de jun de 2010

Sobre a poesia...

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"A poesia vem como uma febre. De repente lhe vem e aí você agradece. Você nem sabe explicar por que tem esse dom".


Hilda Hist
(Fonte: Correio Braziliense, 15/02/1998 )

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18 de jun de 2010

José Saramago...

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"Agora há unanimidade quanto a José Saramago. Toda a gente diz que ele morreu. E é verdade."

José Saramago ...

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Retrato do poeta quando jovem
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Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
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Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
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Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
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Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
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José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981)
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Poema à boca fechada
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Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
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Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
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Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
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Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
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Só direi, Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
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José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981)
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12 de jun de 2010

O azul ou o branco

( imagem do blog do autor)
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Teria sido num tempo em que as tardes eram suficientemente extensas para que se pudesse dormir, tranquila, a sesta, as noites tão grandes que era possível, sem esforço, ficar a ler. Teria sido num tempo em que numa daquelas janelas eu vi o alvorecer de uma ideia e por causa dela decidi não regressar. Dias depois zarparia o último navio e no vazio do porto eu compreenderia, enfim, o mundo que me restava. Teria sido num tempo em que se poderia optar por uma viagem ou por uma permanência. Hoje, olhando-à à fotografia da casa, de cuja janela tudo me sucedeu, hesito se é o azul ou o branco o automóvel que lá deixei. Não sei em nome de que ideia, por causa de que ilusão, ou a caminho de que erro, mas parti, do mesmo porto, num outro navio, a caminho do mundo em falta, a parte restante de mim.
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José António Barreiros
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