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9 de abr. de 2011

Querido Mateus


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Querido Mateus .

Palavras que amamos tanto, há muitos anos, dormem em dicionário. Hoje tirei do sono três palavras para dar de presente a você: Livre, Terra e Irmão.
Quando escritas, lê-se poesia; se faladas, são melodia; somadas, fazem novo dia.
Com saudades, despede a
Ana . . .

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Correspondência
Bartolomeu Campos Queirós
Editora Miguilim .

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4 de set. de 2010

Clarice...

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(menina Clarice no Rio)

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Ter nascido me estragou a saúde.

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Clarice Lispector
in Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980. p.135

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1 de set. de 2010

O aprendiz de poesia

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(...) Muito plagiei, a princípio. Primeiro timidamente, depois como um possesso. Castro Alves, companheiro de noitadas de meu tio-avô Mello Moraes Filho, emprestou-me sua revolta condoreira. Olavo Bilac cedeu-me o diamante com que cortava os duros cristais de sua poesia. Guilherme de Almeida presenteou-me com seu geraldysmo, sua reticência ilustre, seu sorriso imóvel e seus punhos de renda. Menotti deu-me seu lorgnon, seus crachás, seu jucamulatismo. Descia de Antero a Júlio Dantas, perpetrando ceias, desvendando seios, ai de mim. Abria a antologia à toa e esperava. Casemiro? Casemiro! E assim se foi povoando de negros caracteres impecáveis um grande livro de capa preta, rubricado "Prefeitura do Distrito Federal", sobre que, tenho a impressão, um funcionário qualquer, meu parente, havia feito mão baixa. Mas que importava? Era um livro belo, um caderno de perfeito almaço, da grossura da minha ambição de criar poesia, vasto bastante para o menino que queria voar com asas roubadas, essas que tão cuidadosamente punha nas omoplatas para o exercício noturno dentro de seu quarto dentro da Ilha dentro da baía dentro da cidade dentro do país dentro do mar dentro do mundo.
Um dia conheci um poeta como mandam as regras, com livro publicado e tudo o mais. Chamava-se João Lyra Filho, era moço nortista, apaixonado, e recitava Augusto dos Anjos por trás de uma cadeira. Augusto dos Anjos! Como me chocava aquela ousadia de palavras, a misturar a miséria ao sublime, o esterco à estrela, a podridão do túmulo à beleza da vida! Preferia Adelmar, para quem, naquele tempo, voltavam-se os olhos fiéis de João Lyra Filho como os do sacristão para o padre.
Certa vez, depois de uma noite de angústia, resolvi mostrar-lhe meus versos. Reunira-os sob o nome de "Foederis arca". Mas o poeta não gostou. Disse-me de modo brando que desistisse daquilo. Falou-me da predestinação poética, que eu não tinha. Meu negócio devia ser outro. Faltava-me aquele imponderável que os amantes do belo representam esfregando sutilmente a polpa do polegar contra a dos outros dedos, mas não como para indicar o vil metal: mais devagar, como a destilar a própria substância imanente da arte.
O poetinha aprendiz desistiu?
Coisíssima nenhuma! Prossegui firme, inabalável, entre alexandrinos, decassílabos e redondilhas, a perpetrar odes, sonetos, elegias, éclogas, cromos e acrósticos que dava fielmente às namoradas que fui semeando, da Gávea a Sabará.
Era o martírio da poesia, em todo o meu desvario.
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Uma noite – eu tinha 17 anos – Otávio de Faria e eu fomos tocando a pé da Galeria Cruzeiro até a Gávea, onde ficava minha casa, na rua Lopes Quintas. Não era infreqüente fazermos isso, à base da conversa. Era um hábito da amizade entre o calouro e o veterano da Faculdade de Direito do Catete, aquele passeio noturno povoado das sombras de Nietzsche e da pantomima de Chaplin. Lembro-me que à meia-noite, bem alto, na estrada de Orion, brilhava uma lua como nunca vi mais cheia, a cabeleira solta, os seios nus, o olhar de louca a me varar o peito de súplicas e doestos.
Era tal o mistério dessa noite que agora mesmo, escrevendo na minha sala noturna, sinto os cabelos se me içarem de leve, como se fosse sentir novamente sobre eles a mão macia da lua cheia.
Deixei Octavio de Faria no seu bonde de volta e subi Lopes Quintas, rumo a casa. O sossego era perfeito, total o sono do mundo. Só às vezes, subitamente, dos espaços descia um braço de vento que varria as folhas secas da rua e empinava papéis velhos como hipocampos. Transpus, ansiado, a distância familiar que me levava para alguma coisa que sentia vir mas não sabia o que era. Em casa, galguei rápido as escadas para o meu quarto no primeiro andar, e fui sentar-me ofegante à escrivaninha antiga, a mesma que tenho hoje, a mesma que suportou na infância o peso da minha ambição de ser poeta. A janela estava aberta, e em sua moldura a lua viera se postar, os olhos cravados em mim.
Não sei como foi, mas sei que foi diferente de tudo o que sentia antes. Meus ouvidos, como conchas, pareciam recolher os ruídos mais longínquos do mar que estilhaçava em mim. Ouvi o sopro da noite, o cair das folhas, o germinar das plantas que boliam fora, na mata próxima ao Corcovado, e ali perto, no jardim. Pombas vazaram do meu coração, deixando-me dentro, a se debater, a grande ave inimiga que me feria com suas asas querendo sair também, fugir, voar para longe. Senti-me sem peso, sem dimensão, sem matéria. Meu ser volatilizou-se para a lua, transformado ele próprio em substância lunar. E comecei a escrever como nunca dantes, liberto de métrica e rima, algo que era eu mas que era também diferente de mim; algo que eu tinha e de que não participava, como um fogo-fátuo a crepitar da minha carne em agonia.

Linha por linha, como psicografado, o poema – o meu primeiro poema – começou a brotar de mim.



O ar está cheio de murmúrios misteriosos...


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Há algum tempo atrás terminei os trabalhos de correção de uma coletânea de meus poemas, a sair proximamente. Lembrei-me do meu primeiro poema, do primeiro poema em que me vi criando poesia, transformando a natureza, sendo a voz que existia em mim e não era eu. Estudei longamente a possibilidade de colocá-lo na seleção, mas não houve jeito. Era ruim demais. Mas, curioso! senti a forma como a querer, em vão, segredar-me imponderáveis.
Tive saudades do tempo em que a poesia para mim era isso: a noite, com suas vozes, a lua com seus véus, o silêncio noturno da terra a rolar no infinito. Tive saudades de Júlio Dantas, Adelmar Tavares, João Lyra Filho. De repente, a poesia fez-se tão exigente, o poeta fez-se tão lúcido...
Por que tiveste que passar, poesia inocente, poesia ruim, que eu fazia com os olhos nos olhos da lua? Por que morreste e deixaste o poeta calmo, firme, sóbrio dentro da noite sem mistério?
Outubro de 1953


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Vinicius de Moraes
in Poesia Completa & Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986. p. 606 - 609

23 de jul. de 2010

sobre a arte...

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Jacek Yerka
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Talvez fosse isso mesmo, a arte: compulsão de abismo,
para manter a alma inteira.
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Lya Luft
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16 de jul. de 2010

Sobre a poesia...



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"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é a arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência, nem uma estética, nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta..."


Sophia de Mello Breyner
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12 de jun. de 2010

O azul ou o branco

( imagem do blog do autor)
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Teria sido num tempo em que as tardes eram suficientemente extensas para que se pudesse dormir, tranquila, a sesta, as noites tão grandes que era possível, sem esforço, ficar a ler. Teria sido num tempo em que numa daquelas janelas eu vi o alvorecer de uma ideia e por causa dela decidi não regressar. Dias depois zarparia o último navio e no vazio do porto eu compreenderia, enfim, o mundo que me restava. Teria sido num tempo em que se poderia optar por uma viagem ou por uma permanência. Hoje, olhando-à à fotografia da casa, de cuja janela tudo me sucedeu, hesito se é o azul ou o branco o automóvel que lá deixei. Não sei em nome de que ideia, por causa de que ilusão, ou a caminho de que erro, mas parti, do mesmo porto, num outro navio, a caminho do mundo em falta, a parte restante de mim.
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José António Barreiros
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4 de abr. de 2010

Só Dez Por Cento é Mentira

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Ficha Técnica

Título Original:
 Só Dez Por Cento é Mentira
Gênero:
Documentário
Direção:
Pedro Cezar
Produtores:
Kátia Adler
 Lully Villar
Pedro Cezar
Rafaela Treuffar
Elenco:
Bianca Ramoneda
Manoel de Barros
Joel Pizzini
Paulo Giannini
Adriana Falcão
Fausto Wolff
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(cena extra)
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Teologia do traste
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As coisas jogadas fora por motivo de traste
são alvo de minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias, sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito - a gente sabe.
Há idéias luminosas - a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm.................................
...................................................... Agora
eu queria que os verbos iluminassem.
Que os trastes iluminassem.
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Manoel de Barros
in Poemas Rupestres. Rio de Janeiro, Record, 2007, p. 47
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Leia:
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2 de abr. de 2010

2 de abril: Dia Internacional do Livro Infantil !

A comemoração acontece no dia do nascimento do escritor Hans Christian Andersen.
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É dificil encontrar um adulto que ainda não ouviu ou leu uma das histórias de Andersen.
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Aproveito essa data para homenagear o  escritor português António Garcia Barreto.   
Conheci António através do seu antigo blog  Tio Lunetas.  "A Oficina do Tio Lunetas foi o título de uma página infantil por mim criada e coordenada no semanário regional Notícias da Amadora nos anos de 1981-82. Recuperei-o agora para acolher este espaço de Mecânica da Fantasia e Outras Artes para Crianças e Jovens. Aqui serão incluídos diversos temas relacionados com a literatura infanto-juvenil. Desde a criatividade à informação. Certamente, este blog não terá uma actualização diária. Mas prometo tanto como possível uma Mecânica afinada."
Uma grande parte da sua obra é dedicada ao público infanto-juvenil:

«O Caso da Cobra com Asas», col. Brigada Azul, Oficina do Livro, 2009
«Ricardo Caiu no Buraco de Ozono», Ambar, 2008
«Conta Comigo, Pai!», Ambar, 2006
«A Mitra Desaparecida», Ambar, 2006
«Uma Zebra ao Telefone», Ambar, 2006
«Amanhã Regresso a Casa», Ambar
«O Caso da Máscara Desmascarada», Vega Editora, 2001
«O Caso da Cobra com Asas», Vega Editora, 2000
«Eu Vou Contar a História do Livro», Edições Nave, s/d
«O Luxo da Gata Mafalda», Edições ASA, 1986
«Um Hipopótamo com Soluços», Edições Nave, 1985
«Tobias, Um Gato Com Manias», Edições Ró, 1982
«Na Rua Onde Moro», Plátano Editora, 1981
«Na-Nu, O Menino Que Estudava Num Livro de Pedra», Editorial Caminho, 1979
«História das Três Janelas», Plátano Editora, 1977
«Botão Procura Casa», Plátano Editora, 1977. Posterior versão em Braille.
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Nesse mes de abril pela Oficina do Livro chega as livrarias o seu novo romance: UM SORRISO PARA A ETERNIDADE.
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"O sorriso amável do meu avô Aurélio é a única imagem forte que retenho dele. Tudo o resto, que não foi nada, acabou por se esfumar ou nem sequer existir. Só esse sorriso magnético e encantador me liga à sua memória, levando-me a pôr em dúvida a sua herança genética, já que eu nunca soube sorrir, e ainda menos de forma amável. Mas alguma coisa devo ter herdado dele. Ando agora interessado em desvendar a sua existência misteriosa e um tanto desvairada, segundo a opinião geral da família, para compreender melhor as razões da minha própria vida." ( leia mais)
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Mesmo tendo recebido durante todos esses anos o destaque e o merecido reconhecimento de sua obra, António ainda conserva o hábito saudável e elegante  de gostar de conversar com os seus leitores. A comemoração desse blog, nesse 2 de abril,  é  dedicada a ANTÓNIO GARCIA BARRETO.
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1 de abr. de 2010

Dia Internacional do Homem?

O  Elcio Tuiribepi me convidou para participar de uma brincadeira nesse 1 de abril. Seu blog está promovendo uma blogagem coletiva em homengagem ao Dia Internacional do Homem:
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Escolhi uma crônica de Fernando Sabino para animar essa festa:
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Aldemir Martins - Menino
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Menino
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Menino venha pra dentro, olhe o sereno! Vá lavar essa mão. Já escovou os dentes? Tome a bênção a seu pai. Já pra cama!
Onde é que aprendeu isso, menino? Coisa mais feia. Tome modos. Hoje você fica sem sobremesa. Onde é que você estava? Agora chega, menino, tenha santa paciência.
De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe? Isso, assim que eu gosto: menino educado, obediente. Está vendo? É só a gente falar. Desça daí, menino! Me prega cada susto... Pare com isso! Jogue isso fora. Uma boa surra dava jeito nisso. Que é que você andou arranjando? Quem lhe ensinou esses modos? Passe pra dentro. Isso não é gente para ficar andando com você.
Avise a seu pai que o jantar está na mesa. Você prometeu, tem de cumprir. Que é que você vai ser quando crescer? Não, chega: você já repetiu duas vezes. Por que você está quieto aí? Alguma você está tramando... Não ande descalço, já disse! Vá calçar o sapato. Já tomou o remédio? Tem de comer tudo: você acaba virando um palito. Quantas vezes já lhe disse para não mexer aqui? Esse barulho, menino! Seu pai está dormindo. Pare com essa correria dentro de casa, vá brincar lá fora. Você vai acabar caindo daí. Peça licença a seu pai primeiro. Isso é maneira de responder a sua irmã? Se não fizer, fica de castigo. Segure o garfo direito. Ponha a camisa pra dentro da calça. Fica perguntando, tudo você quer saber! Isso é conversa de gente grande. Depois eu dou. Depois eu deixo. Depois eu levo. Depois eu conto.
Agora deixa seu pai descansar - ele está cansado, trabalhou o dia todo. Você precisa ser muito bonzinho com ele, meu filho. Ele gosta tanto de você. Tudo que ele faz é para o seu bem. Olhe aí, vestiu essa roupa agorinha mesmo, já está toda suja. Fez seus deveres? Você vai chegar atrasado. Chora não, filhinho, mamãe está aqui com você. Nosso Senhor não vai deixar doer mais.
Quando você for grande, você também vai poder. Já disse que não, e não, e não! Ah, é assim? Pois você vai ver só quando seu pai chegar. Não fale de boca cheia. Junte a comida no meio do prato. Por causa disso é preciso gritar? Seja homem. Você ainda é muito pequeno para saber essas coisas. Mamãe tem muito orgulho de você. Cale essa boca! Você precisa cortar esse cabelo.
Sorvete não pode, você está resfriado. Não sei como você tem coragem de fazer assim com sua mãe. Se você comer agora, depois não janta. Assim você se machuca. Deixa de fita. Um menino desse tamanho, que é que os outros hão de dizer? Você queria que fizessem o mesmo com você? Continua assim que eu lhe dou umas palmadas. Pensa que a gente tem dinheiro para jogar fora? Tome juízo, menino.
Ganhou agora mesmo e já acabou de quebrar. Que é que você vai querer no dia de seus anos? Agora não, que eu tenho o que fazer. Não fique triste não, depois mamãe dá outro. Você teve saudades de mim? Vou contar só mais uma, que está na hora de dormir. Agora dorme, filhinho. Dê um beijo aqui - Papai do Céu lhe abençoe. Este menino, meu Deus...
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Fernando Sabino
Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978
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31 de mar. de 2010

Leituras da Sophia ...

Decidi colocar nesse blog algumas leituras da minha menina de 11 anos. Nessa semana ela está mergulhada num livro de crônicas indicado por sua professora de português. Rimos muito com a maneira como Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino descreveram algumas situações. Para vocês, leituras da Sophia:
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Os diferentes estilos
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Parodiando Raymond Queneau, que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber: o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta.
Estilo interjetivo - Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena!
Estilo colorido - Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um vigia de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro.
Estilo antimunicipalista - Quando mais um dia e sofrimento e desmandos nasceu para esta cidade tão mal governada, nas margens imundas esburacadas e fétidas da Lagoa Rodrigo de Freitas, e em cujo arredores falta água há vários meses, sem falar nas freqüentes mortandades de peixes já famosas, o vigia de uma construção (já permitiram, por debaixo do pano, a ignominiosa elevação de gabarito em Ipanema) encontrou o cadáver de um desgraçado morador desta cidade sem policiamento. Como não podia deixar de ser, o corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele perigoso foco de epidemias. Até quando?
Estilo reacionário - Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram na manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já não bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio.
Estilo então -  Então o vigia de uma construção em Ipanema não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providências necessárias. Aí então eu resolvi te contar isto.
Estilo áulico -  À sobremesa, alguém falou ao Presidente, que na manhã de hoje o cadáver de um homem havia sido encontrado na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Presidente exigiu imediatamente que um de seus auxiliares telegrafasse em seu nome à família enlutada. Como lhe informassem que a vítima ainda não fora identificada, S. Exa., com o seu estimulante bom humor, alegrou os presentes com uma das suas apreciadas blagues.
Estilo schmidtiano -  Coisa terrível é o encontro com um cadáver desconhecido à margem de um lago triste à luz fria da aurora! Trajava-se com alguma humildade mas seus olhos eram azuis, olhos para a festa alegre colorida deste mundo. Era trágico vê-lo morto. Mas ele não estava ali, ingressara para sempre no reino inviolável e escuro da morte, este rio um pouco profundo caluniado de morte.
Estilo complexo de Édipo -  Onde andará a mãezinha do homem encontrado morto na Lagoa Rodrigo de Freitas? Ela que o amamentou, ela que o embalou em seus braços carinhosos?
Estilo preciosista - No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua a Estrela d´Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica.
Estilo Nélson Rodrigues - Usava gravata de bolinhas azuis e morreu!
Estilo sem jeito - Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de um Rui ou o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimento são capazes de expressar esse sentimento: Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a palavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever, mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste, ah, se eu soubesse escrever.
Estilo feminino - Imagine você, Tutsi, que ontem eu fui ao Sach´s legalíssimo, e dormi tarde, com o Tony. Pois logo hoje minha filha que eu estava exausta e tinha hora marcada no cabeleireiro, e estava também querendo dar uma passada na costureira, acho mesmo que vou fazer aquele plissadinho, como o da Tereza, o Roberto resolveu me telefonar quando eu estava no melhor do sono. Mas o que era mesmo que ia te contar? Ah, menina, quando eu olhei da janela, vi uma coisa horrível, um homem morto lá na beira da Lagoa. Estou tão nervosa! Logo eu que tenho horror de gente morta.
Estilo lúdico ou infantil - Na madrugada de hoje por cima o corpo de um homem por baixo foi encontrado por cima pelo vigia de uma construção por baixo. A vítima por baixo não trazia identificação por cima. Tinha aparentemente por cima a idade de quarenta anos por baixo.
Estilo concretista -  Dead dead man man mexe mexe Mensch Mensch MENSCHEIT.
Estilo didático -  Podemos encarar a morte do desconhecido encontrado morto à margem da Lagoa em três aspectos: a) policial; b) humano; c) teológico. Policial: o homem em sociedade, o humano: homem em si mesmo; teológico: o homem em Deus. Polícia e homem: fenômeno; alma de Deus: epidenômeno. Muito simples, como os senhores vêem.
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Paulo Mendes Campos
in Crônicas 4 . Editora Ática, São Paulo, 2003, p.43-46
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29 de mar. de 2010

A pesca milagrosa

(Encontrei esse poema visual no blog do  Ademir Bacca)
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Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler "distraidamente".
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Clarice Lispector
in Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980, p.41
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27 de mar. de 2010

Que turminha da pesada !

Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do Rubem Braga:
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Foto de Moacir Gomes. Rio de Janeiro, 1966.
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Estava procurando uma foto do Paulo Mendes Campos quando encontrei essa preciosidade no blog Catando Poesias .

26 de mar. de 2010

A ceia divina

Frida Kahlo

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Laranja na mesa. Bendita a árvore que te pariu.
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Clarice Lispector
 Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980, p.26
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19 de mar. de 2010

Raquel de Queirós ...

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“Não tenho filhos. A verdade é que eu nunca me senti uma intelectual full-time. Eu sempre dei muito mais importância à vida do que ao fato literário. Eu posso até estar escrevendo a página mais importante de um romance, mas se eu sou solicitada por qualquer coisa da vida cotidiana eu dou atenção a esta coisa, pode ser até na cozinha. Eu não tenho filhos, mas tenho um que ajudei a criar e a quem eu adoro e que meu deu dois netos. Como não tinha filhos, eu e meu marido éramos extremamente ligados. Ele me absorvia muito e eu a ele. De forma que na vida sempre foi muito mais importante para mim o fato de viver que o de escrever.”
.Raquel de Queirós
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In Giovanni Ricciardi, Auto-retratos, Martins Fontes, São Paulo, 1991,  p.41
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9 de mar. de 2010

Cecília Meireles...

Fotografia de José Luis Mendes
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Hoje eu queria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser. Livremente. Sem interesse próprio. Confiantes. A mercê da vida. Sem nenhum sonho de durarem um pouco mais, de ficarem no céu até o ano 2000, de terem emprego público, férias, abono de Natal, montepio, prêmio de loteria, discurso à beira do túmulo, nome em placa de rua, busto no jardim… (Ó nuvens prodigiosas, criaturas efêmeras que estais tão alto e não pretendeis nada, e sois capazes de obscurecer o sol e de fazer frutificar a terra, e não tendes vaidade nenhuma nem apego a esses acasos!) Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens…
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Cecília Meireles
( JANELA MÁGICA. Editora Moderna, São Paulo, 2006, p. 16-17 )

26 de fev. de 2010

Borges...

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Numa palestra , em Paris, na Sornonne, Jorge Luis Borges fez esta confissão pungente: "Sou cego, sou surdo para a música, não leio os jornais, não tenho muita oportunidade de uma conversa, muitos dos meus amigos estão mortos, passei toda a vida a escrever. Que é que vou fazer senão isso?" E num resumo de sua vida e de sua glória:" Comecei, como todos os jovens escritores, por ser um gênio, agora resigno-me a ser Borges."

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Josué Montello - Diário Completo (VolumeII), p. 311

17 de fev. de 2010

Mas já que se há de escrever ...

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"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
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Clarice Lispector
in Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980, p.25
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16 de fev. de 2010

A Xica

 Almeida Junior - Saudades
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Antigamente escreviam-se cartas que seguiam pela mala postal do próximo vapor. Quando era muito urgente telegrafava-se.
Antigamente os sentimentos cumpriam o horários dos paquetes, dos comboios, dos correios.
Antigamente a hora de chegada do carteiro era o momento mais ansiado, mais odiado do dia.
Antigamente o abrir de um envelope era o instante do aperto do coração.
Antigamente escrevia-se em papel de carta muito fino para cada missiva não pesar mais, às vezes aproveitando o verso e o reverso da ténue folhinha.
Antigamente os que não escreviam, aproveitavam um canto final do que estava livre para acrescentarem os beijinhos, os abraços, os xis, as recomendações de todos os que se associavam de modo breve ao acto de se ter escrito.
Antigamente algumas cartas traziam fotografias, sujeitas à curiosidade, outras notas de banco escondidas, com risco de extravio.
Antigamente havia cartas perfumadas, cartas tarjadas de negro, cartas comerciais com facturas e outros efeitos na praça.
Hoje temos a internet e com ela o estarmos instantaneamente a toda a hora e por toda a forma em todo o lado.
Quando a rede falha e estamos longe, sentimo-nos abandonados à nossa sorte. Nem um aerograma, ao menos, em correio aéreo, nós por cá todos bem, saudades à mamã, à Xica e aos meninos...
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7 de nov. de 2009

Josué Montello...



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3 de maio (1973)
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O esquecimento é uma forma de silêncio. De silêncio absoluto. Vem com o tempo, que nos rói a memória. Pode ser um bem, pode ser uma mal. Apaga tudo, reduzindo a escrita ao papel em branco, com a sua lição de humildade.
Por isso mesmo, todo escritor, no começo da vida literária, deveria fazer um estágio de velhas revistas. Ali, no volver de cada folha, há sempre à nossa espera uma lição a recolher. Quanto ruído inútil em torno de certos nomes e de certas obras!
Andei folheando, de ontem para hoje, uma coleção de Fon-fon, entre 1929 e 1934. Ninguém mais famoso do que Bastos Portela. Do que Martins Capistrano. Do que Mário Poppe. Este último, crítico literário. Todos mudos. E esquecidos. Todos. Nem um deles chegou até nós.
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Josué Montello - Diário Completo (Volume I), p.1253