19 de mar de 2010

Raquel de Queirós ...

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“Não tenho filhos. A verdade é que eu nunca me senti uma intelectual full-time. Eu sempre dei muito mais importância à vida do que ao fato literário. Eu posso até estar escrevendo a página mais importante de um romance, mas se eu sou solicitada por qualquer coisa da vida cotidiana eu dou atenção a esta coisa, pode ser até na cozinha. Eu não tenho filhos, mas tenho um que ajudei a criar e a quem eu adoro e que meu deu dois netos. Como não tinha filhos, eu e meu marido éramos extremamente ligados. Ele me absorvia muito e eu a ele. De forma que na vida sempre foi muito mais importante para mim o fato de viver que o de escrever.”
.Raquel de Queirós
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In Giovanni Ricciardi, Auto-retratos, Martins Fontes, São Paulo, 1991,  p.41
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3 comentários:

manuel marques disse...

Telha de Vidro

Por Rachel de Queiroz


Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.


Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!



Beijos.

Pelos caminhos da vida. disse...

Tem selinho "Dia do Blogueiro" lá pra vc, sinta-se à vontade para aceitar.

beijooo.

José Carlos Brandão disse...

E ficam falando mal do escritor, que só pensa em escrever. Só é escritor, não vive. Oras, quem não vive não tem como escrever. É a lição de Graciliano Ramos: escrever apenas do que se viveu.
Beijo.