4 de out de 2011

Trecho de Café Expresso

Anita Malfatti - O violeiro e a daminha no engenho
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A minha xícara de café é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória apagada... Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da estrada... Na minha memória pousou um pinhé gritando: crapinhé! E passam uns homens que levam às costas jacás multicores com grãos de café. E piscam lá dentro, no fundo de meu coração, uns olhos negros de cabocla a olhar para mim com seu vestido de alecrim e pés no chão. E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa... Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de sol que floriu no portão... E os fazendeiros, calculando a safra do espigão..."

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Cassiano Ricardo, Café Expresso

3 de out de 2011

Carl Larsson - Woman Writing

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.O processo de escrever é feito de erros - a maioria essenciais - de coragem e preguiça, desespero e esperança, de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada, e de repente aquilo que se pensou que era “nada” era o próprio assustador contato com a tessitura de viver - e esse instante de reconhecimento, esse mergulhar anônimo, esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação) precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito. O processo de escrever é difícil? Mas é como chamar de difícil o modo extremamente caprichoso e natural como uma flor é feita. (Mamãe, me disse o menino, o mar está lindo, verde e com azul, e com ondas! Está todo anaturezado! Todo sem ninguém ter feito ele!) A impaciência enorme ao trabalhar (ficar de pé junto da planta para vê-la crescer e não se vê nada) não é em relação à coisa propriamente dita, mas à paciência monstruosa que se tem (a planta cresce de noite). Como se se dissesse: “ não suporto um minuto mais ser tão paciente”, “a paciência do relojoeiro me enerva”, etc. O que impacienta mais é a pesada paciência vegetativa, boi servindo ao arado.

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Clarice Lispector

2 de out de 2011

Os Três Mal-Amados


(Giant, 1997)


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Joaquim:


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
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“Os Três Mal-Amados”, do livro “João Cabral de Melo Neto - Obras Completas”, Ed. Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

Para o meu olhar...

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Bayeux - França

1 de out de 2011

A mala por fazer...

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Às vezes é só o desejo ferroviário de partir. O colocar a mala na rede por cima do assento. Esperar que ninguém nos acompanhe na carruagem. Abrir o jornal e adormecer, na ronronante viagem. Num qualquer apeadeiro, perdidas já as saudades de tudo, e ainda sem saber para que destino, mirar todos e cada um dos que entram a bordo, como se houvesse neles uma razão que a nós nos falta. Às vezes é só ficar eternamente no cais, a mala por fazer. um itinerário pelos carris do sonho pelas estações da ilusão.
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The Magic Book...

“The Magic Book” by Teresa Yeh


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(do meu tumblr: Diário do entardecer...)

9 de mai de 2011

Adélia...




Já mocinha, olhava minha mãe limpar um frango, estava calma e doce. Descansou a faca na mesa, pôs a mão na minha cabeça e me falou ensinando como boa mãe: olha aqui, Pia, um frango bem picado, contando com os pés e a cabeça, dá vinte e um pedaços. Achei que éramos especiais, pois sendo então uma família de sete pessoas, cabiam a cada um três pedaços exatos. Minha mãe me quer.

Adélia Prado
Quero minha mãe, Editora Record, p. 77


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O sertão na canção



3 de mai de 2011

Bandeiras ao vento

Às vezes confunde-se se será ler ou rezar. Ou ambas as coisas com igual devoção. Tal como as bandeiras buditas os livros deveriam ser expostos ao vento, para que as suas palavras voassem e povoassem toda a terra.



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O leitor e o livro...

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The World of Interiors - U.K.


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25 de abr de 2011

cadernos

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não tenho cadernos

tudo o que eu escrevo,

escrevo nas paredes do meu quarto.

Se é para estar presa,

que seja entre quatro poemas..


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24 de abr de 2011

Convite!



O meu blog O MUNDO ENCANTADO DE CECÍLIA MEIRELES


está fazendo 5 anos.


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21 de abr de 2011

O RIO

Max Ferguson - "Mr. Gordon", 2000 / Clique AQUI e conheça o site do pintor









O RIO.Ó rios de minha vida:
os que cruzei sem ter visto
e os que fluem, com mais tinta,
no pélago das retinas
de quem agora os recria!.




Não vi o Eufrates e o Tigre,
ou o esfíngico Nilo,
esse que corre por Biblos
e se derrama em estrias
às bordas de Alexandria.





.. E não vi, no Middle East,
o irascível Mississipi,
de que T. S. Eliot disse
ser um deus castanho e altivo,
cuja cadência se ouvia.




nos verdes quintais de abril,
no aroma das uvas híbridas,
no berçário dos meninos
e no óleo das lamparinas
que o duro inverno aqueciam..




De mãos dadas a esse ritmo,
vi o Tâmisa poluído
na Londres dos anos vinte;
vi-lhe as garrafas vazias
e as migalhas de comida,.




um rato a esconder-se, esquivo,
em meio às ervas daninhas.
E ouvi também, mais longínquo,
o riso que, ressequido,
do turvo rio se erguia.[...]




E o que dizer desse rio
que em dois hemisférios cinde
a rendilhada Paris?
O que dizer desse cisne
que Baudelaire viu um dia,.




tão ridículo e sublime,
a sujar as plumas límpidas
nas lajes do Sena esguio,
onde, entre náuseos detritos,
ia, aos tombos, se ferindo?.




Sobre o Arno, o grave e humilde
Ponte Vecchio se equilibra.
Ali, Dante viu Beatriz,
mas nele o amor que cintila
é o de Francesca da Rimini.[...]





Ó Tejo, ó tágides minhas!
Ó Camões sôbolos rios
que por Babilônia singram
e sangram todo o lirismo
de que vive e morre a língua!





.. Ó rio que viu Ulisses
fundar a velha Olisipo,
que depois Lisboa vira,
muito embora não o digam
a Odisséia e a llíada![...]





Falo, enfim, daquele rio
de cujas águas alígeras
ninguém sai igual a si
ou àquilo que está vindo
a ser, mas não é ainda..




Tudo se move. Esta é a sina
de todos, este o castigo
que nos coube, como a Sísifo:
o de sermos o princípio
e o fim, na mesma medida..




Por isso louvei os rios
que não começam nem findam
e que estão sempre fugindo
dessa fraude que os quer hirtos
como alguém que já não vive.



Ivan Junqueira
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16 de abr de 2011

Liberdade

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Delacroix - A Liberdade conduzindo o povo
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. Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome .

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Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

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Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome .

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Na selva e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

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Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome .

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Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome .

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Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

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Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

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Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome


Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome .

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Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

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Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

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No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

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Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome .

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No trampolim desta porta
Nos objectos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

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Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

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Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome


Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

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Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome .

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Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

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E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade
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Paul Éluard
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(Poema escrito em 1942 com o título "Une Seule Pensée
(Tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira )
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13 de abr de 2011

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A paciência de Deus sentou de pernas cruzadas na platibanda da igreja

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Adélia Prado

(O coração disparado – p. 91)

Pintura de Monet

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12 de abr de 2011

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Zacek Yerka


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Muitas velas, muitos remos.
Âncora é outro falar ...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

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Cecília Meireles
. ( O rei do mar )


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10 de abr de 2011

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pirilampeou na noite de outono
no piscar das luzes
o céu virou brinquedo
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Leonor Cordeiro

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9 de abr de 2011

Querido Mateus


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Querido Mateus .

Palavras que amamos tanto, há muitos anos, dormem em dicionário. Hoje tirei do sono três palavras para dar de presente a você: Livre, Terra e Irmão.
Quando escritas, lê-se poesia; se faladas, são melodia; somadas, fazem novo dia.
Com saudades, despede a
Ana . . .

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Correspondência
Bartolomeu Campos Queirós
Editora Miguilim .

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8 de abr de 2011

Completo

Wyeth Andrew

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Ando muito completo de vazios.

Meu órgão de morrer me predomina.

Estou sem eternidades.

Não posso mais saber quando amanheço ontem.

Está rengo de mim o amanhecer.

Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.

Atrás do ocaso fervem os insetos.

Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.

Essas coisas me mudam para cisco.

A minha independência tem algemas.

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Manoel de Barros

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29 de mar de 2011

O Poema

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. Que será o poema,

essa estranha trama

de penumbra e flama

que a boca blasfema?

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Que será, se há lama

no que escreve a pena

ou lhe aflora à cena

o excesso de um drama?

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Que será o poema:

uma voz que clama?

Uma luz que emana?

Ou a dor que algema?

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Ivan Junqueira

( A Sagração dos Ossos)

28 de mar de 2011

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Nunca voltarei,

Nunca voltarei porque nunca se volta.

O lugar a que se volta é sempre outro,

A gare a que se volta é outra,

Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

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Álvaro de Campos

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25 de mar de 2011

Janelas

(Djanira)

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Em todas as janelas me debruço,
em todos os abismos
estendo uma corda
e caminho sobre o nada.
Também ando sobre as águas,
subo em nuvens,
galgo intermináveis escadas.
Abro todas as portas
e cavernas com um sopro
ou três palavras mágicas.
Mergulho em torvelinhos,
danço no meio do vento,
pulo dentro da tempestade.
Em cada encruzilhada me sento
e tento arrumar o destino,
estranho castelo de areia.

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Roseana Murray
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