12 de mar de 2008

Gavetas

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René Magritte
A memória, 1948
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Ela nasceu num tempo onde tudo precisava ser arrumado, compartimentado, organizado, como uma impecável gaveta de meias. Homem se comporta assim, mulher se comporta assim.
Quando via uma mãe atravessando uma rua, não a reconhecia pela barriga ou pela criança nos braços, mas pelo andar, pelos gestos, pela roupa, pelo olhar.
Ela achava lindo o ritual das sextas-feiras nas casas da cidade. Todas as janelas escancaradas, cadeiras sobre as mesas, banheiros encharcados de espuma do teto ao chão, panelas areadas secando ao vento. O cheiro era sempre o mesmo , mistura de casa limpa com vermelhão.
Ana Lúcia, sua amiga da casa ao lado, tinha uma mãe rigorosamente previsível. As cerâmicas das suas varandas eram as que mais brilhavam em todo o quarteirão. Pareciam um grande espelho cobrindo o chão. Pisar naquele brilho? Criança nenhuma tinha permissão. Pezinhos só descalços tocavam levemente os ladrilhos cintilantes.
Ela cresceu, mudou de vizinha, de cidade, de estado, não tinha mais sequer uma gaveta arrumada para se orientar. Hoje ela é várias e nenhuma. Ainda sente o cheiro da infância e continua achando aquele chão a coisa mais linda do mundo, mas a sua sala não tem varandas, nem as simbólicas. Seu espelho é o Outro sem maquiagem de cera ou vermelhão.
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Leonor Cordeiro
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Um comentário:

musqueteira disse...

viva leonor... quando tiver a agenda confirmada... aviso da minha estada e exposição no brasil. o medeiros ferreira é meu vizinho e amigo. pelos sábados cruzamos-nos, aqui em lisboa, no jardim do principe real, onde classicamente debatemos as nossas diferenças e odeias entre monarquia e republica!... obrigado pelo post... no seu blog. quanto á gaveta das meias a minha está impecávelmente arrumada:)