9 de jun de 2006

Fala Irene ...


CICLO DAS CHAMAS, DE ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO
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( Umas palavras... de Irene Vieira da Silva)
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Os poemas, todos com valor autônomo. Valem por si, ciclo interno.O autor faz de cada texto um renascimento, adubo e flor, família de personalidades únicas, mas enlaçadas num ciclo maior, o livro. Victoria da vida, já que os poemas são criaturas,provando que os buenos Prados trazem uma nova potência à voz lírica brasileira: ah, o poema Victoria que pai e filha declamam com firmeza e segurança.Nada pode silenciá-los, nem o comando da violência dos últimos dias ...
Além dos já famosos artistas de nome Almeida Prado (Décio, Lucília, Guilherme...) acho que a poesia precisa desse Antônio Lázaro lá do interior paulista com sua sensibilidade afeita ao arcano e contemporâneo. Nossa alma fica tocada de um outro tempo, mais harmonioso, de relações mais duradouras e profundas.
Romântico? Clássico? Moderno? Pós-moderno? Sua obra escapa a classificações apressadas. Apesar do soneto, e como os grandes do gênero __ Camões, Drummond, Vinicius e outros __o autor não é escravo da fôrma.Apenas torna a sua paixão desmedida, exagerada, de altíssima temperatura e febre... mais domada, como se só assim a expressão fosse possível. Confessa isso em muitos poemas, como pássaro que se acerta para manter o estado de vôo.
Que a paixão, sorte e sina, pela musa primeira, lá na idade ambígua infanto-juvenil, adolescência, foi faísca e choque, conjunção física-espiritual, surpresa, fonte de epifanias poéticas .E a magia daquele instante continua perene como se o relâmpago não mais quisesse apagar, esfriar. Ciclo das Chamas, eterno retorno da paixão pela vida.
Cantiga para Themis é poema nuclear, miolo de furacão, rodamoinho que envolve o eu e a sua circunstância, no ritmo circular em torno do axis mundi, o eixo, o ponto imutável e sem idade: a menina que um dia parou o tempo do relógio, inaugurou o mito da idade de ouro.A amada, a esposa, a mãe de filhos que o eu lírico, marido apaixonado, não cansa de desejar...ah, esses dois, uma paradeira que balança, algo se mexe e faz rumor... é vida fazendo seu nado desta para uma outra margem... margem ainda invisível de tão adiada. Tão longe o fim. Amor sem termo. Parado no dia da faísca, primeira vista... amor. Cadê o tempo? O gato comeu (risos). Eles são assim... crianças, graças a Deus!
A Cantiga,gravada em cd de Ozias Stafuzza, é assim explicada pelo compositor e cantor em entrevista a mim concedida no Orkut : “é uma coisa antiga mesmo, um sentimento de volta a um bom tempo da música que me fez criar aquele arranjo.A primeira parte, antes de entrar no ritmo, é uma valsa sem o compasso rígido de valsa, um cantar atrasado mesmo, deslocando o compasso e os acordes do violão.Quando entra o ritmo, vira um samba-canção puxado para seresta, com alguns elementos de chorinho no improviso do bandolim.Tive a intenção de me reportar a uma fase de ouro da música brasileira que aprecio muito, do aperfeiçoamento do samba dos anos 30 às liras inspiradíssimas de poetas compositores como Cartola...”
Eu arriscara uma apreciação do poema musicado à moda antiga , meio valsa, meio chorinho e modinha ...O efeito é de um tempo mágico, arcano, parecendo serenata sob a janela de um casarão lá de Piracicaba.E o jeito arrastado de cantar, puxando o verso... tudo me foi confirmado por Ozias , o grande parceiro do nosso poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado.
O poema Cantiga para Themis tem o poder de se desdobrar em literatura e psicanálise, renovação e cura onde amor e sexo, corpo e alma, o eu e o outro, infância e maturidade, outrora e porvir, vida e morte, todas as diversidades se convertem em unidade final.
É mesmo Victoria, ah esse poema onde a opção pela vida , pelo querer ser, o ardor desse desejo tudo pode, tudo vence __enthousiasmós, centelha divina, sopro, fôlego, respiração do Criador em nós, suas criaturas. Se somos filhos mesmo, somos senhores de nosso caminho.E os mares, as montanhas, a morte, tudo ajuda...deixa a vida passar.
Milagre que depende de nós, nossa opção pela convivência solidária, projeto de vitoriosos.Em Deus. É ler Canção dos Encontros, com sua visão positiva de acolhida do próximo. O corpo a serviço do Bem: todos os sentidos aguçados, todos os poros como canais de diálogo.Confiar, esperar, crer , verbos que podem curar o mundo, desarmando o egoísmo, a usura, todos os signos do Mal da atualidade.
Este poeta tem, pois, um projeto.Não escreve a esmo, sem metas.Quer contaminar o mundo de uma infecção que ele tem e já é crônica: doente de amor divino, como certos místicos, ele respira no ritmo da infinitude, mas tem consciência histórica, percebe o ar irrespirável aqui na terra, brasileira, em especial.Mas não desiste da fé e se entrega em doação, transbordamento ,com seu texto arejado, fértil, purificador.
Ele acredita nessa comunhão dos seres pela poesia: crê profundamente e até observa tudo com atenção para ver se já está acontecendo o prometido por Deus. E o seu leitor vai sair dos poemas com mais esperança, fé, certeza e sensibilidade, instrumentos necessários para captar sinais da presença do Criador nas criaturas.
Almeida Prado é parceiro de Murilo Mendes. Em Cristo.Poeta católico sem ser catolicão, Opus Dei, nada disso. Seu jeito de amar é sem culpa, o prazer do corpo não é mais que dádiva,alegria de viver e se desdobra em prazer de convívio com todos, toda a família humana.Que claridade ele promove, como Adélia Prado, renovando o jeito enrustido de outras vertentes erótica da Poesia brasileira e universal.
O peso dessa obra não é apenas estético, mas ético: os velhos de oitenta anos, como diz Garcia Márquez, têm o “direito humano” de amar .Os casais há 50 anos juntos, os de bodas de ouro, não devem sucumbir a uma vida sem paixão.Senão, envelhecem de verdade... e morrem.
O nosso poeta privilegia sempre a liberdade de pensamento e de sentires, mesmo contraditórios. E, surpresa, não acha Saudade a palavra mais linda da Língua Portuguesa: para ele, a palavra Liberdade é mais valiosa. E viva, então, a liberdade nossa aqui de dizer umas palavras!

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