12 de jun. de 2008

8 de jun. de 2008

( Maria de Lourdes Hortas...)

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Maria de Lourdes Hortas no Gabinete Português de Leitura Recife
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Sou a minha linguagem
Nela venho e nela vem
Refletida esta paisagem
Que contenho e me contém.
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Fotografia encontrada no blog Esquina Poética

PEQUENOS ANÚNCIOS

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PEQUENOS ANÚNCIOS
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1. Perdeu-se uma alegria:
impossível precisar o instante
e muito menos o ano, o mês ou dia.
gratifica-se a quem a devolver
mesmo danificada:
é bem melhor meia alegria
do que nada.
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2. Foi roubada a lua
da noite da minha rua:
implora-se ao ladrão
que a devolva
em mãos.
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5 de jun. de 2008

Mais um poema do menino declamador ...

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ANÚNCIOS CLASSIFICADOS
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VENDE-SE uma casa de alabastro
com duas janelas debruçadas
de sol.
Tem um olho de jade voltado para o Norte
e um pomar de pêssegos como seios macios.
Tem mar próprio em trânsito para as ilhas
do mundo, e céu próprio servido por gaivotas;
e uma lua enorme e tropical
para week-ends.
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VENDE-SE grande mansão para colégio
ou asilo, rica de paredes;
tem um telhado como o das tartarugas.
Os corredores são enormes
e do seu pátio central
não parte rua nenhuma.
Os muros do quintal são tão subidos
que nem os cães nem a lua poderão
transpô-los.
E no seu jardim desfila
um esquadrão disciplinado
de árvores sem frutos.
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ALUGA-SE uma casa de alva
com três janelas para o amanhã.
Um rio a contorna ao poente
e os seus jardins têm à noite
a luz indireta dos astros.
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SENHORA, procura-se uma
que tenha os olhos da Gioconda,
que tenha a pele da Madona,
e a pureza de Santa Maria Egipcíaca
e o silêncio de Ofélia sob as águas.
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AINDA HÁ VAGA numa ilha
para a que há de vir cheia de graça,
a que terá olhos de cinza
e mãos vivas como a estrela da paineira.
Ainda há vaga onde o sol
vem de manhã sobrevoar o canavial.
Onde as palmeiras residem junto ao mar
acenando com os braços aos navios que passam.
Exigem-se referências
e cintura delgada como a haste dos coqueiros.
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MÁQUINA DE ESCREVER —vende-se uma—
­que escreve poesia e cartas;
deu corpo a oitenta elegias,
epitáfios e sonetos.
A sua fita é um arco-íris
que dá a cor da pele às palavras.
Dos seus quarenta e dois tipos
escorrem sinais como luzes
acendendo, à noite, numa cidade sem estrelas.
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Alberto Carvalho da Silva, A FÉNIX REFRATÁRIA - 1959

3 de jun. de 2008

O menino declamador ...

Relendo ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS, encontro Zélia comentando sobre dois meninos vindos de Portugal para a sua sala de aula :
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COLEGAS NOVOS
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Dona Carolina nos comunicou um dia, ao chegarmos à sala de aula:
- Amanhã teremos dois coleguinhas novos. São dois meninos recém-chegados de Portugal. Eles ainda não sabem falar direito a nossa língua, mas são meninos inteligentes e educados. Eu peço a vocês, por favor, que não caçoem; eles têm um sotaque carregado, falam muito engraçado, mas a gente precisa ter educação.
Levou tempo na recomendação, deu alguns exemplos sobre cordialidade e boas maneiras. Bateu tanto na tecla da polidez que acabamos – toda a classe- na maior curiosidade de conhecer as duas aves raras.
No dia seguinte, como havia anunciado, apareceram os dois irmãozinhos, Alberto e Domingos Carvalho da Silva. Muito encabulados com tantos olhos a devorá-los, foram se ambientando aos poucos. Eu não ri nem uma vez deles, embora achasse graça de sua maneira de falar. Fiquei contente de entender quase tudo o que diziam.
Um belo dia, na hora dos recitativos, dona Carolina perguntou aos irmãos Carvalho da Silva se sabiam recitar. Domingos declarou que sim e até que, “por acaso”, conhecia uma poesia muito bonita.
No meio da sala, o menino deu um verdadeiro show de declamação! O poema referia-se a um analfabeto que havia recebido uma carta e aflito fazia conjecturas sobre o conteúdo da mesma; seria da mãe ausente? Teria ela morrido?... Domingos gesticulava, suava, chegou a chorar de emoção, parecia que tudo o que os versos diziam era realidade. Extasiada diante de tão grande artista, senti-me, ao mesmo tempo, arrasada e encantada. Daí por diante eu, que até então era arroz-de-festa, a tal nos recitativos e gestos, passei para a sombra de Domingos Carvalho da Silva.
Os dois irmãos não ficaram muito tempo nessa escola e sumiram de minha vista. Encontrei Domingos, muitos anos mais tarde, não o famoso declamador que eu supunha ele viria a ser, mas como poeta, ótimo poeta. Quanto a Alberto, é hoje cientista conhecido.
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Zélia Gattai. Anarquistas, Graças a Deus. Editora Record, p.191-192
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Esses “ meninos de Portugal” citados por Zélia , cresceram no Brasil e fizeram história:

Alberto Carvalho da Silva, cursou medicina, ciências sociais, filosofia, matemática e química.“Nos anos 40, fez-se pesquisador em fisiologia, dedicando-se aos aspectos bioquímicos e metabólicos da nutrição. Nos anos 50 e 60 esteve ligado à criação da Associação de Auxiliares de Ensino — semente da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) — e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), de que veio a se tornar diretor científico em 1968”
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Minha atenção durante a leitura foi toda dirigida para o “menino declamador”. Só depois percebi que esse Domingos, era Domingos Carvalho da Silva, membro da Academia Paulista de Letras, membro da Comissão Estadual de Literatura, membro fundador e presidente da Academia Brasiliense de Letras, o principal porta-voz da Geração de 45.
Essa sua habilidade em recitar poemas que deixou Zélia encantada, foi lembrada em muitas ocasiões. José Pastore, por exemplo, quando sucedeu Domingos na Academia Paulista de Letras, destacou em seu discurso, justamente o prazer ele tinha em recitar poemas de Castro Alves, Raimundo Correa e Olavo Bilac nas festas do seu Grupo Escolar.
Um menino declamador que amava a poesia, que se tornou poeta e que não perdeu com os anos o amor pela poesia e pelo ofício de poeta:
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Este grave ofício de poeta
Que exerço enquanto o tempo vai
Dando mais terra à minha sombra,
Não o aprendi com meu pai.
Este meu álibi de cantar
Para ausentar-me do que sou,
De minha mãe não o herdou
O filho rebelde e sem lar.
Este ritmo que celebrei
No contraponto da viola,
Jamais aprendi na escola
E a mim mesmo ensinei.
Sou inventor do que sou
E, embora neto de avós,
Tenho de próprio a minha voz,
bússola do Norte aonde vou.
Quero a poesia em essência
Abrindo as asas incólumes.
Boêmia, perdida ou tísica,
Viva ou morta, amo a poesia.
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Que delícia ter encontrado nas doces recordações de Zélia Gattai esse menino Domingos, não resisto, mais um verso:
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Quero a palavra fluente,
viva e inquieta como o sangue.
Pura ou impura eu reclamo
a poesia do momento,
filtrada exata constante.

(em Rosa extinta -1945)
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Para encerrar, um convite:

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"correi o mundo e procurai palavras novas para um poema"
(Praia oculta (1949) em “A rosa irrevelada”)

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