31 de out de 2008

29 de out de 2008

Como escrevo?

Bom, eu escrevo regularmente não como poeta, porque o poeta não escreve quando quer, ele escreve quando a poesia quer. Kafavis censura as pessoas que muitas vezes ficam tão ocupadas que não têm tempo para a poesia. Ele diz que a poesia não pode ser tratada como uma criada, que a gente chama quando precisa e manda embora quando não precisa. É a gente que tem que estar à disposição permanente da poesia. Nós é que somo criados dela. Infelizmente, essa senhora exigentíssima usa muito pouco os meus serviços, mas, de qualquer modo, quando ela decide usá-los, eu estou pronto a acolher as solicitações. Já n caso da prosa, eu trabalho regularmente. Eu trabalho regularmente como tradutor e como ensaísta e tenho projetos de trabalho. Como poeta eu realmente escrevo quando a inspiração, se é que ainda se pode usar esse palavrão, aparece.
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José Paulo Paes
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Giovanni Ricciardi, Escrever 2. Bari: Ecumênica Editrici scrl, 1994
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27 de out de 2008

Blogagem coletiva: ABRE ASPAS !

Chegou o dia da blogagem coletiva “Abre Aspas” promovida pela querida Lunna, que vai enfeitar a blogosfera com poesia de primeira.

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Minha escolhida é uma paulista que nasceu na cidade de Santa Rita do Passa Quatro em 1939. Começou a escrever seus poemas aos doze anos de idade e lançou o seu primeiro livro em 1960. Falo de Eunice de Carvalho Arruda ou Enice Arruda como é mais conhecida. Sempre releio os seus poemas que postei nesse blog :



.Carlos Machado, em seu site Alguma Poesia, comenta a sua obra:


“Em versos breves de poemas quase sempre curtos, Eunice traz sempre um tom de desencanto em sua observação do mundo e dos mistérios da poesia. Mas esse desencanto é marcado por uma atitude de quem enfrenta cada palmo do chão em que precisa pisar. É uma poesia de quem se quer vivo e vívido: "Nunca morrer/ enquanto viver" (Propósito). Ou, então, de quem não desiste diante dos descaminhos: "Edifiquei minha / casa sobre a / areia // Todo dia recomeço" (Erro).
Em sua poesia, Eunice Arruda não mente, nem para si mesma nem para o leitor. Esse traço a poeta parece cultivar desde os primeiros passos. Observe-se, por exemplo, o poema "Deus e o Domingo", de 1963. Cedo, a escritora deve ter descoberto que não há soluções milagrosas para as nossas dores. Ela sabe que há, sim, pequenas felicidades e encantamentos — que, em seu ponto de vista, são "horas de trégua". Mas esses momentos só ocorrem "quando se afiam / as facas" (Observando).
Talvez seja exatamente por causa dessa aguda consciência da realidade que a poeta Eunice Arruda sonha com um poema "livre da gramática e do som das palavras". Um poema tão livre "que traga em si a decisão / de ser escrito ou não". Drummond também escreveu que o poema ideal seria aquele que se faz sem poeta. Como isso é apenas um sonho, continuamos a precisar dos poetas: Drummonds, Eunices etc."
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Através de seus versos Eunice toca a minh’alma. Foi difícil escolher um poema para essa postagem, resolvi escolher dois, entrelaçados pelo mesmo tema – vida e morte.
Que fale Eunice na sua dança das palavras:


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Propósito

Viver pouco mas
viver muito
Ser todo o pensamento
Toda a esperança
Toda a alegria
ou angústia - mas ser
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Nunca morrer
enquanto viver
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Um dia

um dia eu
morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas
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um dia eu
morrerei e não
podia:
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. há poemas escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado

( do livro “OS MOMENTOS” – l981 )
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Seus livros:
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É tempo de noite. São Paulo, Massao Ohno, 1960.
O chão batido. Coleção Literatura Contemporânea, 1963.
Outra dúvida. Lisboa, Panorâmica Poética Luso-Hispânica, 1963.
As coisas efêmeras. São Paulo, Ed. do Brasil, 1964.
Invenções do desespero. São Paulo, edição da autora, 1973.
As pessoas, as palavras. São Paulo, Ed. do Escritor, 1984 (2.ed).
Os momentos. São Paulo, Nobel, 1981.
Mudança de lua. São Paulo, Scortecci, 1986 (1.ed.); 1989 (2.ed.)
Gabriel:. São Paulo, Massao Ohno, 1990.
Risco. São Paulo, Nankin Editoral, 1998
À Beira. Rio de Janeiro, Blocos, 1999.
Há estações . São Paulo, Escrituras Editora, 2003
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25 de out de 2008

24 de out de 2008

COGITO

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COGITO
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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
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eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
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eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
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eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
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Torquato Neto
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21 de out de 2008

Protesto Contra A Lentidão das Fontes

( Menino retirante com bauzinho - Portinari)
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Vazaram-se as luas da savana
ossadas pálidas emigraram
dos corpos para o chão
ajoelharam-se os bois
exaustos de carregarem o sol
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Escureceram as horas
nomeadas pela fome
extinguiu-se o sangue da terra
esvaiu-se o leite
num coágulo de saudade
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Restam troncos
sustentos gemidos
mães oblíquas sonhando migalhas
mendigando crenças
para salvar os filhos já quase terrestres
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Quem protege estes meninos
feitos da chuva que não veio?
Que casa lhes havemos de dar?
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Amanhã
quando se entornarem os cântaros do céu
as aves voltarão a roçar a lua
e as cigarras de novo espalharão o canto
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Mas dos meninos
talhados a golpe de poeira
quantos restarão
para saudar o amanhecer dos frutos?

.Mia Couto
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

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18 de out de 2008

HOJE É DIA DE CECÍLIA !

Photobucket -Video and Image Hosting


O dia 7 de novembro marca mais um aniversário do nascimento da escritora Cecília Meireles. Esse blog deseja comemorar esta data distribuindo a poesia de Cecília pela blogosfera com a blogagem coletiva: HOJE É DIA DE CECÍLIA!
Como participar ?

1.Cole o selinho da blogagem em seu blog para divulgar a sua participação.

2. Deixe aqui o nome do seu blog para que ele faça parte da lista dos blogs participantes.

3. No dia 7 de novembro escolha um poema da Cecília para uma postagem especial.

Faça parte desse grupo que respeita e aplaude Cecília divulgando com prazer a sua obra.
Grande abraço !

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Adesões confirmadas até o momento:

1. Informática Educacional e Meio Ambiente - Miriam Salles

2. Flainando na Web - Oscar Luiz

3. By Osc@r Luiz

4. Acqua - Lunna Guedes

5. Dobrando com arte - Carminha

6. Educando o amanhã - Semíramis

7. Leio o mundo assim ... - Andréa Motta

8. Pensieri e Parole - Meire

9. @ndrea Toledo

10. Renata em essência ... - Renata Cristina

11. Amor através do tempo - Renata Cristina

12. Versos de criança - Renata Cristina

13. Um pouco de azul - Nane

14. Página de cultura - André Egg

15. Lino Resende

16. O cantinho da borboleta azul - Sonia H

17. Hiper Urânio - Ana Carolina

18. Universo Desconexo - Lys

19. Mares de Saudade - Tereza Soares

20. Mãe Gaia - Beth/Lilás

21. Educar Já ! - Cybele Méier

22. Flores e Pérolas - Sol

23. Mulher é desdobrável, Eu sou - Tati Martins

24. Relatar, Refletir, Reaprender,Rir... - Cristiane

25. Sotaque Mix - Aline

26. Blue Moon - Tina

27. Alecrim Dourado - Denise

28. Amo Papel - Ivani

29. Outras Frequências - Michelle

30. Adriana Zardini

31. O mundo encantado de Cecília Meireles - Leonor

32. Hippos - Luci Lacey

33. Varanda Poesias - Selma

34. Janela Aberta - Aparecida Ferreira

35. Idéias em Blog - Verônica Carvalho

36. Ler e escrever é só começar - Aparecida Ferreira

37. Boa tarde, Senhor Smith! - Flávia

38. O Amor pela Educação - Aparecida Paulo

39. ESCOLA MUNICIPAL GOV.HERIBERTO HÜLSE

40. Estudando um mundo melhor - Paloma

41. Por uma Internet mais segura para nossas crianças! – Leonor

42. Doce infância … - Leonor

43. Sala de apoio – Eni

44. Alunos do Colégio Estadual Prieto Martinez - Eni e Carlos

45. LIVRO ANIMADO- LIVRO ENCANTADO - Bete

46. Cotidiano de uma Grande Família - Zany

47. Bloguinfo - Sintian

48. Espaço da Ivana

49. Reclinada - Vitória

50. FALA MESTRE! - Lúcia Ribeiro

51. Blogstórias Essenciais – Fátima Campilho

52. Luz de Luma, yes party ! - Luma

53. Chapar as borboletas – Bárbara Lia

54. Bibliotecas Escolares - Raquel

55. Leitura & Magia – Raquel

56. Alfabetização em Foco - Lenira, Deolinda, Claudiane, Vanda

57. A lua e Eu – Ane

58. Alma Poeta – Serena

59. Um cantinho para refletir - Lucy Lordelo

60. Alpendre de Relíquias – Selma

61. O prazer em aprender – Silvinha

62. ALAGOINHA.IPAUMIRIM - Maria Luiza

63. Linda menina – Juliana Seabra

64. Medo de Avião - Ju Rigori

65. Navegando... Ju Rigori

66. Artes em Papel - Natália e Lucas Gabriel

67. Dinstinct - Celso Santos

68. Rosa147Rosamaria

69. Um Canto de Prosear... - Cláudia, Patrycia, Paula, Vanna, Patrícia

70. Escutei-me e digitei – Danilo Lovisi

71. O fantástico mundo das palavras – Leonor

72. A Festa das Letras - Leonor

73. Interlúdio - Flor

74. Mais prosa do que verso – Cláudia

75. Meu Mar Azul – Clesia

76. Esterando – Esther

77. Quem não se arrisca não petisca – Solange Sotero

78. I'll let you know... – May

79. Diniflower – Dileuza

80. Interagindo – Bete

81. Blog Linha – Anny

82. Pequenos Grandes Sentimentos – Ana Lúcia

83. MUNDO AZUL – Zélia

84. Blog do Carlos Rosa

85. Entre Marés – Suzana

86. Sintonias do Coração - Helô

87. Clindenblog - Carol

88. Na casa da vovó – Rosane

89. A moça do sonho... – Du

90. De Ponta Cabeça - Chris

92. Infinito Particular – Cléo

93. Em Badajoz falamos português! – Carmen

94. Metrópole em Poesia

95. Despindo Estórias – Tatah Santini

96. Jardim de Urtigas – Jardineiro de Plantão

98. Laboratório de Informática – Denise Matos

99. Sala de Leitura – Marilia

100. O mar me quer – Maripa

101. Lavanderia Virtual – Juca

102. Vivendo de Histórias – Marisa Pimenta

103. Imaginarius Concrético – Heliana Bastos

104. Meu Blog – Marlene Mora

105. Educadores de Sucesso – Naurelita

106. Blog da Marita

107. Pensamentos da Bia

108. Blog sobre educação, aplicativos, novidades... - Beatriz

109. Vamos blogar? – Beatriz

110. Terra de muitas cobras - Roselee Salles

111. Entre amigos – Tetê

112. Flor de morango – Madalena Barranco

113. Retratos em Degradê – Lu Cavichioli

114. Fio de Ariadne – Vanessa

115. Assuntos etc... – Janaína

116. Recanto de Sonhos - Amarísio

117. Me vendo às avessas – Tânia Pimenta

118. EscolaBR

119. O PC e a Criança – Jenny Horta

120. aprendemos – Mikasmi

121. Fábrica de Palavras – Sara Albuquerque

122. Blogadinha dos Virtuais

123. O paraíso do amor – Celina Alves

124. Desabafo aki – Adri

125. Aprender brincando - Nilsangela Santos

126. libertas-vitalis – Luís Lourenço

127. Brincando com as letrinhas - Leonor Cordeiro

128. A mulher a a poesia - Elvira Carvalho

129. HF diante do espelho – Hercília Fernandes

130. Sensata Paranóia - Urbano Leonel

131. Mensagens para o coração - Luciana Cantanhede

132. Encantos de Inez - Marinez

133. O Manuscrito de Jamille Lobato

134. Compartilhando as Letras – Sonia Regly

135. Le Jardin Éphémère – Maria Augusta

136. Oficina de Palavras – Odele Souza

137. Círculo Literário de Santa Bárbara

138. Chronicles & Tales Unlimited (RED) – Cidão

139. Flor de Lis - Lislene Neri

140. Inventadeira de moda - Monica Loureiro

141. Acendedor de Lâmpadas – Patrycia

142. Doces Deletérios - Lizzie Pohlmann

143. Essencialmente Palavras - Christiane Xavier

144. Mulheres 3.0 Plus - Carla

145. Morcegos - Dilberto

146. Pavulagem da Ro – Roseane

147. mariasentidos - Mariam

148. Mariazinha zinha zinha - Fatima Reis

149. O blog das Arteiras Artesãs! – Betty Mello

150. De tudo um pouco – Betty Mello

151. Mol-TaGGEe - M. Duval

151. Brisa do Sul - Regina Ramão

152. Coisas Nossas

152. Quiosque Azul

153. Puxadinho Mundo Insano - Daniela Figueiredo

154. AUKIMIA – Áurea

155. Versos Rascunhos- Walter Rodrigues

156. Meu Universo em Prosa e Poesia - Evelyne Furtado

157. Quintal da Paula

158. Fragmentos - Herika

159. Coisas Minhas- Joyce

160. Tutora EAD

161. Belleza Pura

162. Querendo quero o infinito – Manuel Marques

163. emclaudialmeida

164. mariasentidos

165- Fragmentos de Mim - Cristiane

166. Coisas que gosto – Heloisa Nascimento

167. Rosa Choque – Beti Timm

168. RAMOSFOREST ENVIRONMENT - Luiz Ramos

169. encanto de renascer – Elisabete Cunha

170. Aprendendo e Ensinando no Núcleo de Tecnologias Educacionais – Cristiane

171. Ne Quid Nimis... - Semíramis Alencar

172. Ensinando e Aprendendo com a Tia Rose – Rose Diniz

173. Palavras ... - Patty

174. Equilíbrio Distante - Ju Prieta

175. Diário da Fafi

176. No canto-do-conto: Um punhado de magia! Betty Mello

177. feltro,lã, pano e papel – O blog das Arteiras Artesãs! Betty e Sueli

178. Blogstórias Digitais – Fátima Campilho

179. Andanças

180. Verseiro - Elcio Tuiribepi

181. Essencialmente Palavras – Christi

11 de out de 2008

ABRE ASPAS !

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A querida Lunna Montez’zinny Guedes está mais uma vez promovendo a blogagem coletiva “ABRE ASPAS” que acontecerá no dia 27 de outubro divulgando poesia pela internet.
Na primeira blogagem tive o prazer de apresentar um poema do querido Lau Siqueira. Dessa vez, estou esperando o meu coração escolher o poeta e a poesia que deixará versos NA DANÇA DAS PALAVRAS.
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11 de outubro de 2008: CEM ANOS DE CARTOLA !


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O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre Cartola no Jornal do Brasil de 27 de novembro de 1980 :
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CARTOLA, NO MOINHO DO MUNDO
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Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.
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Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.
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Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:
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Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.
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Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.
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Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.
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10 de out de 2008

Chegou o novo livro do poeta ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO!

No amanhecer do dia em que será repartida com todos a esmeralda da poesia de Antonio Lázaro, os pássaros da floresta cantarão o nome do poeta pelo que bem que a sua arte faz à beleza da vida.
(Thiago de Mello)

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Quando foi entrevistado na comunidade Discutindo Literatura, Antônio Lázaro de Almeida Prado falou sobre a poesia:
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A poesia foi sempre e será sempre companheira inseparável dos homens, porque é o canal mais adequado que permite condividir através de palavras os movimentos mais caracteristicamente humanos: emoções, solidariedade, ânsias, anseios e temores. Daí o caráter essencialmente unitivo, vale dizer articulador, da arte literária.
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ooo
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Penso que a melhor visão sobre o fazer poético foi definido por Giambattista Vico. Segundo ele todas as crianças, vale dizer, todos os seres têm naturalmente vocação poética. A isso acrescento que de todas as artes a mais fundamentalmente humana é a arte da palavra, que requer, para fazê-la ou recebê-la, o exercício empenhado das melhores virtualidades humanas. Com isso, a poesia participa e requer inspiração, construção: aquela e esta imprescindíveis. Não há poesia que se faça pelo facilitário e é ela sempre fruto de um lúcido ajuste de emoções e palavras.
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A meu ver sempre precisamos da poesia, que por sua essência generosamente busca o universal. Tinha razão Francesco Flora que reagindo ao particularismo fascista afirmou: ¨Dante não é grande apenas por ser italiano, mas porque, italiano, soube falar uma linguagem universal¨. Acredito, aliás na companhia de muitos outros poetas, que nosso atual desafio é ultrapassar as barreiras do ¨universo solitário¨e buscarmos o ¨universo solidário¨.
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ooo
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Penso que a poesia não se esgota em limites temporais e espaciais. Os poetas sempre se sentirão solidários com as lições do passado mas sempre empenhados em aceitar os desafios do presente. Assim quando Mário de Andrade dizia: ¨Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil¨ nada mais fez do que dizer que, embora buscando sempre o universal, sempre nos sentiremos radicados em nossa própria cultura. Cassiano Ricardo se definiu como ¨Sou local pelos pés/ Pássaro universal pelo pensamento.¨
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Nesse sábado, a Casa das Rosas abre as suas portas para receber o querido poeta Antônio Lázaro e o seu novo livro LÚCIDO SONHO. Um programa imperdível para quem mora em São Paulo ou região .
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AVE, PALAVRA...
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Veludo, arminho, bálsamo
Na pura voz de um pássaro
Na vez de um puro amor.
Sorriso, amplexo, abraço
Ternura, mel, afeto
E à tenra luz da aurora.
Encontro, ajuste, acordo
A perfeição do arco-íris
Na integração da ponte.
A voz em pleno apelo
O amor como resposta
No sim de um gesto amigo.
E tudo em convergência
No encontro da ternura
E a perfeição de um beijo.
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AGORA É A HORA...
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Ah! se eu pudesse impregnar meu canto
Só de ternura, em rimas convertida,
Unia em sons à tua a minha vida,
De tua graça faria o meu encanto;
Ah! se a canção lograsse tornar brando
Meu coração, rebelde e empedernido,
Qual barco, conturbado e sacudido,
Ao porto da alegria ia aportando.
Na comunhão fraterna do poema
Tornara um só o universal desejo
E amar seria a força de meu lema.
Ah! puro som, harmonizada aurora,
Horizonte de luz, só para o beijo,
Converte-se em alegria agora, agora...
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Para adquirir LÚCIDO SONHO basta você enviar um e-mail para Fernanda de Almeida Prado ( feraprado@gmail.com ), o livro logo estará em suas mãos.
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Dia: 11 de outubro

Horário: 17h às 20h

Local: Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura

Av. Paulista , 37 - São Paulo

9 de out de 2008

Raison de vivre ...

Em 09 de outubro de 1998 faleceu o poeta, tradutor, crítico e ensaísta José Paulo Paes.
Em 1986, Carlos Felipe Moisés perguntou ao poeta:
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-Você morreria se fosse impedido de escrever?
- Não, claro que não. Eu só morreria se não me deixassem comer. Agora, a verdade é que se eu não pudesse escrever meus poemas, meus ensaios, minha vida perderia talvez aquilo que possa justificá-la, não aos olhos dos outros, mas aos meus próprios. Há um poeta que aprecio muito, Paul Eluard, que gostava de usar a expressão "razão de viver". É freqüente na sua poesia isso que me parece bem francês, bem do cartesianismo francês, de procurar a razão das coisas. "Raison de vivre"... Eu hoje tenho na literatura, no exercício da criação literária, a minha razão de viver. Minha geração, que é coetânea da voga existencialista, sempre se preocupou muito com a questão do absurdo da existência e sempre achou que a empresa do homem era tentar achar uma justificativa, uma razão de ser, para contrapor a esse absurdo. Aquela coisa do mito de Sísifo, de arrastar o rochedo lá para cima, e ele vindo para baixo... A literatura, para mim, é uma das formas mais elevadas de dar sentido à vida, de lutar contra o absurdo existencial.
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TERMO DE RESPONSABILIDADE
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mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício
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já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração
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silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!
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Os melhores poemas
Editora Global,São Paulo, 1998, p. 140
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CONVITE
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Poesia
é brincar com palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.
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Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.
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As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
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Como a água do rio
que é água sempre nova.
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Como cada dia
que é sempre um novo dia.
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Vamos brincar de poesia?
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Poemas para brincar
Editora Ática, 1990

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HINO AO SONO
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sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?
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Um por Todos (Poesia Reunida)
Ed. Brasiliense, São Paulo, 1986

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Hoje, que se completa 10 anos da morte do poeta, vários escritores vão se reunir na Casa das Rosas, para ler poemas e dar depoimentos sobre Paes.
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Data: 9/10, quinta-feira
Hora: 19h30
Local: Casa das Rosas
Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Av. Paulista, 37 – Bela Vista
São Paulo
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7 de out de 2008

Sapientia ...

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" Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama ‘pesquisar’. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de ‘desaprender’, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: ‘Sapientia’: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível ."
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(Roland Barthes)
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2 de out de 2008

ERRO

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Jacek Yerka

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ERRO

.Edifiquei minha

casa sobre a

areia

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Todo dia recomeço

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. Eunice Arruda

.De As Pessoas, As Palavras (1976)