26 de fev de 2010

Borges...

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Numa palestra , em Paris, na Sornonne, Jorge Luis Borges fez esta confissão pungente: "Sou cego, sou surdo para a música, não leio os jornais, não tenho muita oportunidade de uma conversa, muitos dos meus amigos estão mortos, passei toda a vida a escrever. Que é que vou fazer senão isso?" E num resumo de sua vida e de sua glória:" Comecei, como todos os jovens escritores, por ser um gênio, agora resigno-me a ser Borges."

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Josué Montello - Diário Completo (VolumeII), p. 311

Pedro Nava...

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23 de fev de 2010

Henry Fuseli
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ela viveu longos anos sem ver o sol por inteiro
morreu por falta absoluta de vitamina D


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.Leonor Cordeiro

18 de fev de 2010

(Ricardo Reis ... )

[315]

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VEM SENTAR-TE comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
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Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

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Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
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Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
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Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
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Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
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E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

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Ricardo Reis
( Fernando Pessoa in «Obra poética», Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1986, p. 256-257 )

17 de fev de 2010

Mas já que se há de escrever ...

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"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."
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Clarice Lispector
in Para não esquecer. Círculo do livro, São Paulo, 1980, p.25
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16 de fev de 2010

A Xica

 Almeida Junior - Saudades
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Antigamente escreviam-se cartas que seguiam pela mala postal do próximo vapor. Quando era muito urgente telegrafava-se.
Antigamente os sentimentos cumpriam o horários dos paquetes, dos comboios, dos correios.
Antigamente a hora de chegada do carteiro era o momento mais ansiado, mais odiado do dia.
Antigamente o abrir de um envelope era o instante do aperto do coração.
Antigamente escrevia-se em papel de carta muito fino para cada missiva não pesar mais, às vezes aproveitando o verso e o reverso da ténue folhinha.
Antigamente os que não escreviam, aproveitavam um canto final do que estava livre para acrescentarem os beijinhos, os abraços, os xis, as recomendações de todos os que se associavam de modo breve ao acto de se ter escrito.
Antigamente algumas cartas traziam fotografias, sujeitas à curiosidade, outras notas de banco escondidas, com risco de extravio.
Antigamente havia cartas perfumadas, cartas tarjadas de negro, cartas comerciais com facturas e outros efeitos na praça.
Hoje temos a internet e com ela o estarmos instantaneamente a toda a hora e por toda a forma em todo o lado.
Quando a rede falha e estamos longe, sentimo-nos abandonados à nossa sorte. Nem um aerograma, ao menos, em correio aéreo, nós por cá todos bem, saudades à mamã, à Xica e aos meninos...
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13 de fev de 2010

Meus amigos blogueiros e as suas palavras...

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Faz tanto tempo que dói ...
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"Sou pequeno hoje como então, no meu passado morto."
José Carlos Mendes Brandão
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O lampião da minha infância brilha e faz sombra
na mesa da cozinha, nas paredes, nas telhas altas
e no infinito, nos mistérios da noite e de Deus.
Sou pequeno hoje como então, no meu passado morto.
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12 de fev de 2010

Serra da Boa Esperança ...

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(imagem: Minastour.com )
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SERRA DA BOA ESPERANÇA
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Serra da Boa Esperança,
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai,
No coração de que vem,
Serra da Boa Esperança,
Meu último bem
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Parto levando saudades,
Saudades deixando,
Murchas, caídas na serra,
Bem perto de Deus
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus
Vou-me enbora
Deixo a luz do olhar
No teu luar
Adeus!
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Levo na minha cantiga
A imagem da serra
Sei que Jesus não castiga
Um poeta que erra
Nós, os poetas, erramos
Porque rimamos, também
Os nossos olhos nos olhos
De alguém que não vem
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Serra da Boa Esperança,
Não tenhas receio,
Hei de guardar tua imagem
Com a graça de Deus!
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus,
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu olhar
Adeus!
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Lamartine Babo

10 de fev de 2010

Rotina

Edward Hopper

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Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.


Eugénio de Andrade
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8 de fev de 2010

He vuelto a ver los Álamos dorados...

ilustração de Patricia Metola
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.He vuelto a ver los álamos dorados,
álamos del camino en la ribera (...)
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He vuelto a ver los álamos dorados,

álamos del camino en la ribera

del Duero, entre San Polo y San Saturio:

tras las murallas viejas

de Soria – barbacana

hacia Aragón, en castellana tierra-.

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Estos chopos del río, que acompañan

con el sonido de sus hojas secas

el son del agua, cuando el viento sopla,

tienen en sus cortezas

grabadas iniciales que son nombres

de enamorados, cifras que son fechas.

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¡Alamos del amor que ayer tuvisteis

de ruiseñores vuestras ramas llenas;

álamos que seréis mañana liras

del viento perfumado en primavera;

álamos del amor cerca del água

que corre y pasa y sueña;

alamos de las márgenes del Duero,

conmigo vais, mi corazón os lleva!

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Antonio Machado

7 de fev de 2010

A arte do poeta

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Fotomontagem de Recp Gulec
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A arte do poeta
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para Antonio Cicero
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escrever um poema é ser assaltado
e manter o sangue frio

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ou fazê-lo ferver, borbulhar e correr
nas frias treliças metálicas
do concreto armado
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escrever um poema é costurar
gotas de suor ou lágrimas
tecer longa colcha de ondas
sobre sonhos profundos
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ou subir na espiral dos sons
de uma escada cujos degraus
são as notas de uma canção oca
e ascender
através das nuvens evaporadas
rumo ao sol
ao céu
ao nada
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Lucas Nicolato, in Promessas Provisórias
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6 de fev de 2010

Las aventuras perdidas

Wyeth Andrew

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explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

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explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome
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Alejandra Pizarnik
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2 de fev de 2010

Lugares

Imigração Italiana - Escultura de Carlos Crepaz
(Museu do Café - Ribeirão Preto)
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há lugares na alma
tão escuros
que até os cegos
podem contar as estrelas
cadentes

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contar as estrelas
e fazer muitos desejos
tantos quantos cabem na alma
de um cego

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há praias na alma
tão escuras
que até os videntes
pensam que é céu

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cada grão de mica encerra
uma estrela que caiu
de modo que o mundo
da alma
parece não ter pé nem cabeça
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Ruy Proença

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Depois de passar dois meses tentando reencontrar lugares da minha infância no interior de São Paulo, voltei. A possibilidade do reencontro é conversa para uma outra postagem.
É bom estar novamente com vocês.

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