31 de mai de 2008

( e ninguém mais se conhece...)

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Laura Tereza Alma Tadema
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E havia um tempo em que o meu olhar dizia:
“Bom dia, Sr. Dia!”
Era o meu primeiro pensamento ao despertar.
Naquele tempo todas as coisas tinham nome próprio.
O relógio, não era o relógio apenas,
O relógio chamava-se Relógio
E as orações da noite eram ditas diretamente a Deus nosso Senhor.
Tudo era familiar.
Ao alcance da mão, da voz, do olhar.
Depois é que veio a Idade do Conhecimento
E ninguém mais se conhece!
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Mario Quintana
(Preparativos de Viagem)
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28 de mai de 2008

Lavinia Fontana ...

O leitor e o livro...

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Lavinia Fontana
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( O GUARDADOR DE REBANHOS ...)

[207]
II
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O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
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Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
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Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
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Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
8-3-1914
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Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"
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25 de mai de 2008

25 DE MAIO: DIA INTERNACIONAL DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DESAPARECIDOS

Fotografia de Leonor Cordeiro

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(...) Mas por que desaparece tanta gente, todos os dias, em redor de nós, sem que possamos admitir que esses desaparecimentos sejam de origem lírica?
Ouço pelo rádio as famílias, os amigos, os conhecidos que indagam, inquietos, que reclamam, descrevem, dão sinais, indicam pistas. Há desaparecidos de todas as idades e cores, e ambos os sexos, das mais variadas condições sociais: quem tiver notícias de seu paradeiro é favor informar às pessoas aflitas que os procuram.
Mas quem vai saber o paradeiro da mocinha de blusa cor-de-rosa e saia amarela que, assim colorida, bateu asas sem se despedir dos parentes? Quem viu o menino de blusão verde e sapatos novos que saiu de casa pela tardinha e lá se foi andando – e irá andando enquanto tiver boas solas nos sapatos – por muito que os pais inconsoláveis o estejam chorando e os vizinhos não possam entender tamanha ingratidão? Que foi feito da velhinha, um pouco desmemoriada, que saiu para a missa e depois entrou por um caminho desconhecido, com seu vestido cinzento, sua bolsinha de verniz e duas travessas no cabelo?
Há os desaparecidos recentes: de ontem, da semana passada, de há um mês ou dois. Assim mesmo recentes não se encontram vestígios seus em parte alguma. Foram raptados? Ficaram debaixo do trem? Subiram para algum disco voador? Afogaram-se? Partiram para o secreto paraíso onde não querem ser importunados? Embarcaram para Citera? Quem sabe o que lhes aconteceu?
Mais comoventes, porém, é a busca de desaparecidos antigos: “procura-se uma conhecida que há três anos não se encontra...” Para onde foi a jovem Marília que há cinqüenta anos disse que ia trabalhar no Rio de Janeiro?... Que é feito do rapaz moreno, com um sinal no queixo, que usava um cordãozinho de outro com a imagem de São Jorge?
Todas essas pessoas e muitas outras estão sendo procuradas, pacientemente, com anúncios pelos jornais e nas emissoras. Uma incansável busca. Gente de todos os Estados do Brasil, gente com vários compromissos: eram noivos, eram chefes de família, eram donas-de-casa.. Gente miúda, que não se esperava desse capaz de meter-se em aventuras: meninotas e rapazinhos em idade escolar; mocinhas que pareciam tímidas e assustadas, moços ainda sem emprego...
(...) Mas os afetos vigilantes continuam, inconformados, a recordar os ausentes – todos os dias novos, todos os dias mais numerosos – e, por humildes lugares, famílias tristes cultivam longos canteiros de saudades.
(Trechos da crônica - GENTE DESAPARECIDA)
Cecília Meireles. Escolha o Seu Sonho - Editora Record, p.43-45

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Você sabia que o Brasil registra mais ou menos 40 mil desaparecimentos de crianças e adolescentes por ano?
Você sabia que aqui não existe uma rede ou cadastro nacional para registrar informações dos desaparecidos?
Você sabia que não há comunicação entre a polícia militar, civis e federal, em relação ao desaparecimento de uma criança?
Precisamos criar no Brasil o ALERTA AMBER .

Você pode conhecer melhor o ALERTA AMBER acessando o MOVIMENTO PELA CRIAÇÃO DO ALERTA AMBER NO BRASIL . Você pode participar da criação do Alerta AMBER no Brasil assinando a petição que será encaminhada à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal . CLIQUE AQUI PARA ASSINAR !

24 de mai de 2008

É perdido todo o tempo que não é dedicado ao amor

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Por ocasião da posse de Zélia Gattai na Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni comentou que ela gostava de usar uma frase emprestada da obra do poeta italiano Torquato Tasso : “é perdido todo o tempo que não é dedicado ao amor”.
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É impossível pensar em Zélia sem pensar em Jorge, é impossível pensar em Jorge Amado sem pensar em Zélia.

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Jorge que amava Zélia...
“Ao pousar pela primeira vez os olhos em você, meu coração disparou”
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Zélia que amava Jorge...
"Um dia, Jorge Amado me convidou para ir a um jantar em homenagem ao poeta Pablo Neruda (1904-1973). Após a confraternização, ele foi levar o Neruda ao hotel e me deu uma carona. Jorge nunca dirigiu na vida, então fomos de táxi. Em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, ele pediu para o motorista parar o táxi e comprou uma lata enorme cheia de cravos vermelhos e os atirou em mim. Tomei um banho de cravos, dos pés à cabeça, fiquei toda molhada. Esse foi o começo de uma vida em comum que durou 56 anos." (Última entrevista que a escritora concedeu à Folha, em novembro de 2007)
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É perdido todo o tempo que não é dedicado ao amor...
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21 de mai de 2008

Gaston Bachelard ...

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(...) Quem vive para a poesia deve ler tudo. Quantas vezes, de uma simples brochura, jorrou para mim a luz de uma imagem nova! Quando aceitamos ser animados por imagens novas, descobrimos irisações nas imagens dos velhos livros. As idades poéticas unem-se numa memória viva. A nova idade desperta a antiga. A antiga vem reviver na nova. Nunca a poesia é tão uma como quando se diversifica.
Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cântaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodígio, fácil. Pois lá em cima, no céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?
Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso, dizem em uníssono o pedagogo e a dieteticista, “assimilar”. Para isso, somos aconselhados a não ler com demasiada rapidez e a cuidar para não engolir trechos excessivamente grandes. Dividam, dizem-nos, cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem necessárias para melhor resolve-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles, saboreiem versos por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e bons. Mas um princípio os comanda. Antes de mais nada, é necessário um bom desejo de comer , de beber e de ler. É preciso ler muito, ler mais, ler sempre.
Assim, já de manhã, diante dos livros acumulados sobre a mesa, faço ao deus da leitura a minha prece de leitor voraz: “A fome nossa de cada dia nos daí hoje...”
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Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio , Martins Fontes, p.25-26
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20 de mai de 2008

(Pessoa...)

[76]
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PARA ONDE vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?
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Fernando Pessoa, Cancioneiro. Obra Poética, Editora Nova Aguilar, p.129
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BIENAL DO LIVRO DE MINAS !

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Ontem a Arena Jovem na Bienal do Livro de Minas recebeu Ziraldo e Mário Vale para discutirem o tema : O humor mostra as coisas pelo avesso?
Ziraldo chegou ao local escoltado por dezenas de crianças que não paravam de falar e sorrir para o pai do Menino Maluquinho, da Menina das Estrelas e de tantos outros personagens que já se tornaram velhos conhecidos de todas elas.
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Os dois cartunistas acabaram optando por uma convesa gostosa e informal com os participantes. A maioria das perguntas dirigidas ao Ziraldo estavam relacionadas com os seus personagens e livros.
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Em certo momento, Ziraldo destacou o seu livro "Menina das Estrelas". Explicou para as meninas ali presentes, que essa personagem permitiu que ele entrasse no rico e interessante mundo feminino. Até então, nos seus personagens, a figura do menino predominava . A menina das estrelas quebrou esse reinado masculino .
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"Menina, como se sabe,
não tem força de menino
mas tem a enorme coragem
de se jogar, por inteiro,
no poço de seu destino.
Pela coragem, menina
sabe ficar pequenina
E, também, no mesmo instante
-quando menor se espera -
menina vira um gigante !"
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19 de mai de 2008

BIENAL DO LIVRO DE MINAS !

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BIENAL DO LIVRO DE MINAS !
15 A 25 DE MAIO DE 2008 - EXPOMINAS - BELO HORIZONTE
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...Chegou a BIENAL DO LIVRO DE MINAS para a turma do pão de queijo. O trem tá bão demais !
Destaco para você o Café Literário, que proporciona momentos de inteiração dos leitores com os autores.
...A foto a seguir, marca o meu encontro com Lúcia Hiratsuka. Ela participou do Café Literário junto com Angela Lago e Odilon Moraes . O tema proposto foi "A ilustração pode revelar uma origem? - Homenagem Especial aos 100 anos da imigração japonesa" .
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Meu encontro com Lúcia Hiratsuka
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Lúcia e Angela Lago
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...Além do Café Literário estou encontrando diversos autores no lançamento dos seus livros.
...A querida Angela Lago no espaço da Scipione autografou o Livro de Horas . "A escrita poética de Dickinson, ambígua, irônica, fragmentada e aberta a várias possibilidades de interpretação, antecipa, sob muitos aspectos, os movimentos modernistas que se sucederiam depois de sua morte. Essa instigante poesia, nascida na solidão e no anonimato, mas impregnada dos mais profundos valores humanos, dá hoje a Emily Dickinson um merecido e imorredouro lugar na literatura universal.
O chamado Livro de horas constituía um gênero medieval, que continha orações e salmos para as diversas horas do dia. Em geral, vinha ornamentado por iluminuras, esses contornos de flores e volutas que, como bordados, circundavam os manuscritos. Angela-Lago não perdeu isso de vista ao selecionar e traduzir os poemas que compõem este livro: escolheu aqueles que nos tocam com simplicidade, evocando o canto e o reencantamento do mundo."
...Você pode escolher os lançamentos na programação dos expositores, no site da Bienal.
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Angela Lago no laçamento do Livro de Horas
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...Outro destaque da programação cultural é a Arena Jovem . Lugar de encontro para os jovens debaterem assuntos relacionados ao seu dia a dia .
...Vou parar por aqui, a Bienal me espera ...
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15 de mai de 2008

As memórias de Pedro Nava ...

Jovens em Belo Horizonte
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“Uma certa liberdade feminina começava a apontar. Vinha de trás com os cabelos à la garçonne. Exagerava-se agora, as nucas sempre nuas mas, aos lados, os accroche-coeurs em ganchos cada vez maiores e colados à bochecha. Sua forma era mantida a cosmético de bigode, gomalina ou mais simplesmente a goma de quiabo. Os chapéus femininos eram pequenos, enterrados até os olhos, cobrindo as orelhas, descendo à nuca – aderentes à cabeça como se fossem camisas-de-vênus. As saias subiam cada vez mais generosamente- estavam nos joelhos. Tinha passado completamente aquela moda passageira dos 23, dos vestidos de organdi, compridos e rodados cheios dos enfeites de grades da mesma fazenda (o amarelo das Mariquinhas Vivacqua era a coisa mais leve desse mundo) e dos coques no alto das cabeças, lisos ou riçados, saindo dos cabelos embutidos atrás e mantidos por grandes pentes como os das espanholas (o da Zita Viana era o mais alto e tinha a prendê-lo peça antiga, autêntica e de tartaruga).
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Influência do cinema, nos bailes começaram a surgir decotes feito os das artistas americanas em que a blusa ou o que fazia de – vinha até acima dos seios e segurava-se no arrocho ou por alças estreitas que circulavam os ombros. Vimos assim os primeiros sovacos raspados (que pena!) enquanto as que achavam imodesto tratar as axilas a navalha, usavam, saindo do vestido um tapinha que cobria a zona cabeluda e que prendia-se no braço com fitinhas. Em ambos os casos, sempre fazendo parte do vestido de baile, echarpes de gaze que disfarçavam aquele excesso de carne à mostra.
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Barbara La Marr

Começava-se timidamente a conversar nos portões com as amadas ou abordá-las rapidamente nas ruas. No gesto e no vestir elas imitavam Barbara La Marr, Pola Negri, Mae Murray e Gloria Swanson.
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Gloria Swanson
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Nós usávamos cabelos colados à Valentino, colarinhos à John Barrymore, ternos à Thomas Meighan, jaquetões à George Walsh.”
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Pedro Nava , Beira – Mar. Editora Nova Fronteira, p. 323-323
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Rodolfo Valentino
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13 de mai de 2008

Debret e a escravidão no Brasil

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KEDERE !

Minha menina chegou da escola perguntando sobre a comemoração dos 120 anos da Abolição da Escravatura. Dei uma passeada pelos blogs e pelas capas dos jornais. Foi um passeio rápido, logo percebi que a notícia não estava sendo muito divulgada.
Não esperava encontrar balões coloridos de festa, também sei que a abolição continua incompleta, que a população negra em sua maioria esmagadora continua a viver à margem da nossa sociedade. Mas esse silêncio chega a ser constrangedor, claro que existe um significado para tudo isso, um significado que apenas confirma que a exclusão do negro continua firme nesse Brasil de hoje.
Apenas na capa da FOLHA DE S.PAULO encontrei uma notícia relacionada com o mapeamento feito pelo IBGE sobre a distribuição da população negra no Brasil : "... os pesquisadores apontaram uma coincidência entre a alta concentração de população negra (pretos e pardos autodeclarados ao IBGE) e os portos que atuaram como receptores de escravos: São Luís (MA), Salvador (BA), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ).A capital fluminense tem 9,4% de pretos e 30,8% de pardos, enquanto Porto Alegre (RS) tem apenas 8,7% de pretos e 7,8% de pardos.O trabalho do IBGE, obtido pela Folha, aponta ainda a permanência dos negros em regiões para as quais eles se deslocaram de acordo com o desenvolvimento da economia durante a escravidão, como o litoral nordestino e o interior do Maranhão e do Piauí."Esse mapa possibilita a identificação espacial da população negra no Brasil, e isso certamente vai ajudar os nossos gestores a produzir políticas públicas que visem a inclusão e a redução da desigualdade racial no país", disse à Folha o ministro Edson Santos (Igualdade Racial)."

Na minha visita passei pelos Top 100 blogs brasileiros segundo o Technorati". Nessa lista, apenas dois blogs comentaram o assunto:

Blog do Juca : A Lei Áurea e o futebol

o biscoito fino e a massa : 120 anos da Lei Áurea e a ação de inconstitucionalidade contra as cotas

Continuando a minha procura, encontrei mais alguns espaços que promoveram uma reflexão sobre essa data, mas essa reflexão aconteceu principalmente nos blogs ligados a educação e aos movimentos sociais.
O silêncio dos blogs e das primeiras páginas dos jornais você já conhece, agora o que dizer sobre o silêncio que impera em nossas escolas em relação ao descomprimento da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 ?

"Art. 26-A :
Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
.§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
.§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras."

Por tudo isso, escolhi a palavra Kedere, para dar título a essa postagem. Kedere no idioma Iorubá, significa ESCLARECER.
Numa sociedade tão desigual como a nossa, muita coisa precisa ser esclarecida para que na prática, a abolição se torne real.
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(Continuando com Fernando Pessoa ...)

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[163]
TUDO QUE FAÇO ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
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Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço -
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Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
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Fernando Pessoa, Cancioneiro. Poesia Completa, Editora Nova Aguilar, p. 172
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Fotografia : Jon Sullivan

11 de mai de 2008

O mundo não é maternal...

Gustav Klimt - Mother and Child
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O MUNDO NÃO É MATERNAL...
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É bom ter mãe quando se é criança, e também quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passamos fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.
O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere com ferro será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim, de slogans e estatísticas.
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta, exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.
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Martha Medeiros

Minha mãe ...

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Minha mãe pescando no Rio Verde em 1950...
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ORFANDADE
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Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.
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Adélia Prado , Bagagem. Editora Guanabara, p. 22
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10 de mai de 2008

RANCOR

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Andrew Wyeth
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Não sou seu pai nem a revista molhada sobre a banqueta do seu banheiro. Não quero ser o cinzeiro que mobília a sua casa na espera de visitas. Não tenho mais paciência para carregar tanta culpa daqueles tempos que você insiste em dizer que eram melhores do que em hoje em dia. Que fique claro, como sempre foi a minha conduta, das minhas manias, dos meus rituais e, agora, da minha vida. Essa que você não entende. Entende? Que agora eu tenho fogão, panela quente e que meu afeto não é ausente. Mas é condimento do meu bem querer. De gaiolas nunca gostei. E, que eu saiba, nem você. Então me deixe viver. Assim no clichê dos sofás, das tardes com sexo, pipoca e risadas, da noite que quer acabar cedo, da preguiça dos lugares alheios, da minha idade avançada. Quero estar velhinha, chata, escondida. Quero escolher aonde vou, o horário de sair e entrar. Sabe... Ando com preguiça da mocidade, dessas atrocidades de “não-sei-bem-o-que”. Sim, já fiz tudo isso, mais o verso, inverso e não pretendo sujar os pratos que comi. Volto a dizer: o tempo é meu de direito. É certo. A minha paz depende daqueles que eu amo. Se não entende, não pretendo mesmo ser didática. O que não posso é fazer vendaval em casa, criar tempestades no meio da sala, alagar a cozinha. Isso eu não posso. Não insista. Em programa alheio, convidado não insulta o dono da casa. Nunca criei atalhos para quem eu sou. Respeite-me. Não sou mulher de recados, não me aborreça com suas verdades, com conclusões mal fundadas. Essa é uma rua errada. Não cause acidentes impensados, por favor. Desacelere e eu freio. Ninguém aqui quer atropelamentos, não é mesmo? Por enquanto o parque está fechado para reparos.
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7 de mai de 2008

MINHA TERRA

Pintura de Tarsila do Amaral
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Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
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Gonçalves Dias
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Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha;
— Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.
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Correi pr'as bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
— É uma terra de amores
Alcatifada de flores,
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de abril.
(...)
É um país majestoso
Essa terra de Tupá,
Desd'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
— Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.
(...)
Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios;
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.
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Foi ali, foi no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;
Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!
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Um povo ergueu-se cantando
— Mancebos e anciãos —
E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
— Portugal! somos irmãos!
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Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam — guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!
(...)
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Casimiro de Abreu
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5 de mai de 2008

Um dia

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UM DIA
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um dia eu
morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas
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um dia eu
morrerei e
não
podia:
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há poemas
escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado
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Eunice arruda
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De Os Momentos (1981)
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Lugarejo

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LUGAREJO
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O trem muge o longe.
Os vagões levam toneladas de horas
e astros enferrujados.
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Bicho de ferro,
atravessando a facão o lombo do dia,
enchendo de metálica melodia
a vida homens dali.

O leitor e o livro ...








1 de mai de 2008

SE FOR BLOGAR, NÃO BEBA CAFÉ. SE FOR BEBER CAFÉ, NÃO BLOGUE !

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Café pra mim tem que ser fraquinho e pelando, soltando fumaça ...
Pois não é que derramei o danadinho enquanto digitava ? Quase virei blogueira pururuca !
Ô trem que dói dimais sô!

Credo !